O número de bilionários no mundo atingiu um novo recorde em 2026, segundo a lista anual da Forbes, que reúne 3.428 nomes e um patrimônio somado de US$ 20 trilhões. O levantamento foi divulgado em março e mostra também o aumento da presença brasileira, com 71 bilionários no ranking. De acordo com informações da Agência Pública, o pesquisador Antonio David Cattani avalia que a concentração de riqueza se intensificou nas últimas décadas e pode agravar impactos sobre assalariados, aposentados e pequenos empresários em uma eventual crise.
A reportagem destaca que, no fim dos anos 1990, a lista da Forbes tinha menos de 500 bilionários, com riqueza total inferior a US$ 1 trilhão. Em 2026, além do salto no número de integrantes, a soma do patrimônio desse grupo passou a equivaler ao PIB da China ou a cerca de oito vezes a economia brasileira, conforme o texto original. Entre os brasileiros, o total acumulado ultrapassa R$ 1,5 trilhão.
Por que há cada vez mais bilionários no mundo?
Em entrevista à Agência Pública, o professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Antonio David Cattani, afirmou que esse é um processo internacional que se acentuou desde os anos 1980. Segundo ele, milionários sempre existiram, mas o que chama atenção agora é a velocidade da acumulação e a multiplicação de grandes fortunas em setores que antes não eram associados a esse nível de riqueza.
Para o pesquisador, o avanço das inovações tecnológicas e dos processos especulativos ajuda a explicar o fenômeno. Ele observa que, em contraste com o início do século 20, quando grandes impérios econômicos levavam anos para ser construídos, hoje a combinação entre tecnologia e mercado financeiro pode transformar rapidamente empresários em bilionários.
Qual é o papel da financeirização nesse avanço da riqueza?
Cattani afirma que não existe uma causa única para o aumento do número de bilionários, mas aponta a financeirização da economia como um dos fatores centrais. Segundo ele, parte dessa nova riqueza não deriva apenas de atividades produtivas, industriais ou de serviços, mas também de operações financeiras e valores de mercado que podem ficar muito acima da capacidade concreta de geração de renda dessas empresas.
Ao comentar fortunas ligadas ao Vale do Silício, o pesquisador diz que há casos em que o rendimento anual das empresas não corresponde ao valor de mercado alcançado por suas ações. Na avaliação dele, esse descompasso sustenta uma dinâmica especulativa. Em sua leitura, isso alimenta o temor de uma bolha financeira semelhante às crises de 2008 ou de 1929, embora ele ressalte que não é possível prever quando uma ruptura aconteceria.
“A grande questão é que ninguém sabe quando.”
Quem pode ser mais afetado por uma eventual crise?
Na avaliação do pesquisador, uma eventual explosão dessa bolha atingiria com mais força os grupos socialmente mais vulneráveis. Ele argumenta que os muito ricos tendem a preservar parte relevante de seu patrimônio por meio da diversificação de investimentos, enquanto trabalhadores, aposentados e pequenos empresários ficariam mais expostos aos efeitos econômicos de uma retração.
“[Os bilionários] conseguem manipular as eleições, os governos, e escapar de todos os controles elementares que a democracia, bem ou mal, foi construindo nesses últimos anos. Isso, com o tempo, é um caminho para o desastre, que infelizmente vai afetar mais as pessoas vulneráveis, assalariados, aposentados e pequenos empresários.”
No texto, ele também relaciona a concentração extrema de riqueza a um risco para o regime democrático. Ao comentar casos recentes no Brasil e nos Estados Unidos, Cattani sustenta que o poder econômico concentrado amplia a capacidade de influência sobre governos e decisões políticas, o que, segundo ele, é incompatível com uma democracia equilibrada.
Quais dados do ranking de 2026 se destacam?
Entre os principais pontos citados pela reportagem, estão:
- 3.428 bilionários listados pela Forbes em 2026;
- 400 novos nomes incluídos em um ano;
- US$ 20 trilhões em patrimônio somado;
- 71 brasileiros no ranking, 16 a mais do que em 2025;
- Mais de R$ 1,5 trilhão concentrados pelos brasileiros listados.
A reportagem também informa que Elon Musk lidera a lista global. Entre os nomes de origem brasileira, Eduardo Saverin aparece como o mais rico, com US$ 35,9 bilhões, seguido por Vicky Safra, com US$ 27,1 bilhões. No caso de Vicky Safra, o texto observa que, na lista internacional, ela passou a ser contabilizada pela Grécia.
Ao analisar esse cenário, Cattani afirma que a expansão do número de super-ricos não deve ser lida apenas como sinal de dinamismo econômico. Para ele, o crescimento acelerado da riqueza concentrada revela um desequilíbrio estrutural, com efeitos potenciais sobre a economia e sobre a democracia.