A bicampeã olímpica de atletismo, a sul-africana Caster Semenya, classificou como “um desrespeito às mulheres” a decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI) de restabelecer testes genéticos de “feminilidade” para os Jogos de Los Angeles, em 2028. A medida reabre uma das disputas mais sensíveis e polêmicas do esporte mundial, envolvendo atletas com Diferenças de Desenvolvimento Sexual (DDS). De acordo com informações do UOL Notícias, a nova política, anunciada no fim de março de 2026, determina que atletas com níveis de testosterona naturalmente elevados, como as que têm DDS, precisarão medicar-se para reduzir seus hormônios e poder competir na categoria feminina.
No Brasil, eventuais impactos da medida dependerão da aplicação das regras pelas federações internacionais e pelo próprio COI nos processos de elegibilidade para Los Angeles 2028. O Comitê Olímpico do Brasil (COB), responsável pela representação olímpica do país, não tem posição mencionada no texto original sobre a mudança.
A posição de Semenya, que é uma das atletas mais afetadas por essas regulações, foi veemente. “Isso não tem nada a ver com esporte. É uma questão de direitos humanos”, afirmou a corredora, que venceu os 800 metros em Pequim 2008 e Londres 2012, mas foi barrada de defender seu título no Rio 2016 após a imposição de um limite de testosterona pela World Athletics, a federação internacional do atletismo. A atleta, que tem hiperandrogenismo, se recusou a seguir um tratamento hormonal para se adequar às normas.
Qual é o impacto da nova regra do COI para as atletas?
A decisão do COI representa uma guinada em sua própria postura. Em 2021, o comitê havia publicado um “quadro de justiça, inclusão e não discriminação”, recomendando que federações esportivas abandonassem testes focados exclusivamente na testosterona e evitassem exigir intervenções médicas desnecessárias. No entanto, a pressão de entidades como a World Athletics, que mantém regras restritivas desde 2018, parece ter influenciado a mudança. A nova política exigirá que atletas com DDS que desejem competir nas provas femininas mantenham seus níveis de testosterona abaixo de 2,5 nanomoles por litro por pelo menos 24 meses antes das Olimpíadas.
Para atletas brasileiras de modalidades sujeitas a regras de elegibilidade definidas por federações internacionais, uma eventual adoção de critérios semelhantes também pode afetar inscrições e preparação para o ciclo olímpico. Como o Brasil participa regularmente dos Jogos em provas de atletismo e outras modalidades femininas, o debate internacional tem reflexos potenciais sobre o esporte olímpico nacional.
Especialistas em medicina esportiva e direitos humanos criticam a medida. Eles argumentam que a testosterona é apenas um entre muitos fatores que influenciam o desempenho atlético, como genética, nutrição, acesso a treinamento e psicológico. A exigência de um tratamento hormonal de longo prazo, que pode ter efeitos colaterais significativos, é vista como uma violação da integridade corporal e do direito de participar do esporte. “Eles estão dizendo a mulheres que nasceram e sempre viveram como mulheres que seus corpos não são bons o suficiente”, resumiu uma ativista ouvida pela reportagem.
Quais são os próximos passos e as possíveis consequências?
A implementação da regra deve enfrentar resistência legal. Caster Semenya já moveu batalhas judiciais contra a World Athletics no Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) e na Corte Europeia de Direitos Humanos. A expectativa é que a decisão do COI para 2028 acione novas ações. A atleta sul-africana se tornou um símbolo global da luta contra a discriminação no esporte, e sua causa recebe apoio de organizações como a Anistia Internacional e a ONU.
Além do aspecto legal, a polêmica levanta questões sobre o futuro do esporte de alto rendimento e sua definição de “justiça”. Críticos da medida apontam que a busca por uma “igualdade” biológica absoluta é ilusória e abre precedente para outras formas de exclusão. Por outro lado, defensores das regras, principalmente em federações de atletismo e natação, argumentam que são necessárias para garantir a equidade competitiva entre todas as atletas mulheres.
