Os canais comunitários de irrigação conhecidos como acequias, usados há séculos por agricultores e famílias no Novo México, enfrentam neste ano uma combinação de neve em nível recorde de baixa e calor histórico que reduz a oferta de água no estado. O problema foi relatado em Albuquerque e em outras áreas ligadas ao Rio Grande, onde gestores de água, comunidades locais e irrigantes tentam preservar o abastecimento por meio de rodízios, uso de água subterrânea e práticas tradicionais de cooperação. De acordo com informações do Inside Climate News, o cenário se agravou no início da primavera de 2026, com derretimento precoce da neve e sinais antecipados de secamento do rio.
O tema ganhou visibilidade durante a celebração anual da Primera Agua, em 29 de março, na cabeceira da Atrisco Acequia Madre, em Albuquerque. A cerimônia reúne bênçãos, cantos, danças e discursos comunitários para marcar a primeira chegada de água da temporada, mas neste ano também serviu para destacar a pressão climática sobre um sistema de irrigação que carrega valor agrícola, histórico e cultural desde o período colonial espanhol.
Por que as acequias do Novo México estão sob pressão em 2026?
Segundo a reportagem, o Novo México registrou neve acumulada em patamar historicamente baixo, elemento essencial para garantir fluxo gradual de água às acequias ao longo da estação. Em 20 de abril, a cobertura de neve no estado estava em cerca de 20 por cento do normal. Ao mesmo tempo, as temperaturas elevadas aceleraram a evaporação nos cursos d’água e anteciparam o derretimento de uma camada de neve que já era considerada insuficiente.
Em Albuquerque, durante o evento de 29 de março, a temperatura estava 14 graus Fahrenheit acima da média. Cerca de uma semana antes, a cidade registrou o dia de 90 graus Fahrenheit mais cedo do ano em sua série histórica. A reportagem também afirma que, como em boa parte do Oeste dos Estados Unidos, Albuquerque teve o inverno mais quente já registrado.
“Every year seems like it’s a new bar in terms of the record low,” Paul Tashjian, director of freshwater conservation for Audubon Southwest, said of the low water levels that were already hitting the state in late March. “But this year is almost like that on steroids…It’s not a pretty picture.”
O que são as acequias e qual é sua importância histórica?
As acequias são canais de terra, alimentados por gravidade, que levam água de rios e do derretimento da neve para áreas agrícolas por meio de irrigação por inundação. Sua origem no Novo México remonta ao fim do século 16, quando os espanhóis colonizaram a região. Por volta de 1700, o território que mais tarde se tornaria o estado já contava com cerca de 60 desses canais administrados pela comunidade.
Hoje, existem mais de 700 acequias ativas no Novo México, muitas concentradas na porção norte do estado. Cada sistema tem uma estrutura de governança própria, com um mayordomo, também chamado de chefe do canal, e comissários eleitos para cuidar de manutenção, distribuição de água e resolução de conflitos. Em algumas áreas, acequias tradicionais foram incorporadas a distritos maiores de conservação hídrica, mas muitas ainda operam como subdivisões políticas independentes.
“It’s in your blood. It’s in your soul,” Nieto Gouy said, describing the cultural significance of these waterways.
A reportagem destaca o relato de Dawn Nieto Gouy, moradora ligada ao bairro histórico de Los Duranes, em Albuquerque, onde acequias passam ao lado de casas e campos agrícolas. O testemunho reforça o papel desses canais não apenas na produção rural, mas também na vida cotidiana, na memória coletiva e na identidade local.
Quais regiões já mostram sinais concretos de escassez?
No norte do Novo México, titulares de direitos de uso da água, conhecidos como parciantes, demonstraram preocupação com a possibilidade de a neve escassa não sustentar as várias acequias da região. A reportagem cita ainda um relato do jornal Santa Fe New Mexican sobre a situação na vila de Truchas, onde os canais já apresentavam níveis reduzidos no início da temporada de irrigação.
Mais ao sul, o Middle Rio Grande Conservancy District, o MRGCD, informou no fim de março que talvez não haja água suficiente em 2026 para atender as necessidades de seus 11 mil irrigantes, incluindo parciantes das acequias. Em 27 de março, o Rio Grande já apresentava sinais precoces de secamento no trecho de San Acacia, área que normalmente começa a perder volume no início do verão.
“Historically, we used to talk about May as being a very early time to see that happen,” said Anne Marken, river operations manager for MRGCD. “Last year it happened in April and we were all very shocked by that, but this year it happened in March.”
Como comunidades e gestores tentam enfrentar a falta de água?
Em períodos de escassez, comunidades de acequias recorrem historicamente a práticas de compartilhamento. Usuários podem receber dias ou horas específicos para acessar a água, por exemplo. O MRGCD também adota entregas rotativas dentro de sua área de atuação, levando água a diferentes irrigantes em momentos distintos, conforme a disponibilidade.
A matéria informa que gestores de água também recorrem a orações, bênçãos e ao uso de água subterrânea como parte do esforço para manter o sistema funcionando. O quadro resume os principais fatores descritos na reportagem:
- neve acumulada em nível recorde de baixa;
- calor histórico no mês de março;
- derretimento precoce da neve;
- evaporação acelerada em rios e canais;
- sinais antecipados de secamento do Rio Grande;
- adoção de rodízios e outras medidas de gestão hídrica.
O caso mostra como a pressão climática recai sobre uma infraestrutura tradicional que, além de abastecer a agricultura, sustenta práticas comunitárias transmitidas por gerações no Novo México.