Empresas de inteligência artificial intensificaram suas campanhas de influência sobre medidas regulatórias nos Estados Unidos e na Europa em um momento decisivo para a formulação de regras sobre o setor. O movimento envolve propostas públicas, atuação de lobistas e investimento de milhões de dólares para tentar moldar decisões políticas, segundo o texto publicado em 25 de abril de 2026. De acordo com informações da Revista Fórum, com base em reportagem da AFP, empresas como OpenAI, Anthropic e Mistral buscam influenciar a regulação em discussões que afetam seus modelos de negócio.
A OpenAI, responsável pelo ChatGPT, apresentou no início do mês um documento de 13 páginas com propostas para adaptar a sociedade norte-americana à era da IA. Entre as ideias mencionadas estão aumento de impostos sobre ganhos de capital corporativos, criação de um fundo público para redistribuição de lucros e reforço de mecanismos de proteção social. A iniciativa foi vista com ceticismo por especialistas ouvidos na reportagem.
Por que especialistas veem essas propostas com desconfiança?
Margarida Silva, do Centro de Pesquisa sobre Empresas Multinacionais, o Somo, em Bruxelas, classificou o movimento como um esforço de imagem. Charles Thibout, professor de ciências políticas da Sciences Po Strasbourg, compartilhou avaliação semelhante e afirmou que a empresa americana busca sobretudo melhorar sua posição simbólica no debate público.
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“melhorar simbolicamente sua imagem”
A avaliação aparece em meio a críticas dirigidas à OpenAI por um acordo com o Pentágono que permite o uso de seus modelos para fins militares. Já a Anthropic, liderada por Dario Amodei, rejeita o uso de sua tecnologia pelo governo dos EUA para vigilância em massa de cidadãos ou para o desenvolvimento de armas totalmente autônomas. A empresa defende uma agenda voltada à segurança da IA e a regulações mais rígidas.
Como esse movimento também se manifesta na Europa?
Na Europa, o mesmo tipo de articulação também ganhou força. A startup francesa Mistral apresentou em Bruxelas um roteiro de 22 pontos com o objetivo de acelerar o desenvolvimento da inteligência artificial no continente. Para Alexandra Iteanu, advogada especializada em direito digital, trata-se de um período crucial em que as empresas do setor tentam aprovar medidas alinhadas a seus próprios interesses.
Segundo a reportagem, as posições públicas adotadas por companhias como Mistral e OpenAI se somam a um esforço de lobby já existente, mas que se intensificou nos últimos anos. Nos Estados Unidos, cerca de 3.500 lobistas federais em Washington atuavam em questões relacionadas à IA em 2025, o equivalente a um quarto do total, de acordo com a ONG Public Citizen. O número representa alta de 170% em três anos.
Quais números mostram a dimensão da pressão política?
Além da atuação institucional, as empresas também estariam direcionando recursos a campanhas de influência eleitoral. De olho nas eleições de meio de mandato nos EUA em novembro, OpenAI e outros grupos do setor investem milhões de dólares para promover candidatos com posições semelhantes sobre regulação. A reportagem afirma que Donald Trump, defensor de um paradigma de regulamentação mínima para IA desde seu retorno à Casa Branca, tem entre seus doadores o presidente da OpenAI, Greg Brockman, e o cofundador Sam Altman.
Na Europa, os gastos com lobby de empresas de tecnologia cresceram 55% desde 2021, alcançando 151 milhões de euros em 2025, segundo estudo do Corporate Europe Observatory e do Lobby Control citado no texto. A reportagem também compara esse volume com o da indústria do tabaco, que investe em média 14 milhões de euros por ano em campanhas de influência na União Europeia.
- OpenAI apresentou um documento de 13 páginas com propostas regulatórias nos EUA
- Anthropic defende regras mais rigorosas e rejeita vigilância em massa e armas autônomas
- Mistral levou a Bruxelas um roteiro de 22 pontos para acelerar a IA na Europa
- Nos EUA, 3.500 lobistas atuavam em temas de IA em 2025, segundo a Public Citizen
- Na Europa, o gasto com lobby do setor chegou a 151 milhões de euros em 2025
Que riscos esse avanço do lobby levanta no debate público?
Para Margarida Silva, essas empresas usam estratégias semelhantes às de setores como tabaco e petróleo, mas com capacidade financeira muito maior. A pesquisadora também afirma que companhias como Meta, Apple e Google controlam plataformas e ferramentas poderosas, o que amplia sua influência sobre governos por meio do domínio da infraestrutura de informação.
Charles Thibout disse haver “canais privilegiados” com tomadores de decisão nas administrações públicas dos Estados Unidos e da França. A reportagem cita como exemplos a presença de grandes empresários da tecnologia na posse de Donald Trump, em janeiro de 2025, e a relação entre Arthur Mensch, cofundador da Mistral, e o presidente francês Emmanuel Macron. Para os especialistas citados, essas campanhas podem afetar leis ligadas ao interesse público, como normas ambientais e proteção de dados pessoais, embora Alexandra Iteanu ressalte que os legisladores não são ingênuos. Nos EUA, segundo a reportagem, a opinião pública segue cética em relação aos benefícios da IA, especialmente por temores ligados à perda de empregos e ao impacto dos centros de dados sobre recursos como a água.