Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria há 16 anos em sua atual fase no poder, chega às eleições deste domingo, 12 de abril de 2026, sob risco de perder o cargo diante do avanço do opositor Peter Magyar. Líder ultranacionalista e referência para a extrema direita internacional, Orbán enfrenta desgaste interno em meio à estagnação econômica, escândalos e críticas ao modelo político que consolidou no país. De acordo com informações do G1, com informações da AFP, as pesquisas de intenção de voto colocam Magyar, de centro-direita, como favorito.
Aos 62 anos, Orbán é aliado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do presidente da Rússia, Vladimir Putin. Embora governe um país de 9,5 milhões de habitantes, tornou-se conhecido internacionalmente por sua oposição à União Europeia, à imigração, aos direitos LGBTQIA+ e ao apoio ocidental à Ucrânia contra a invasão russa.
Como Viktor Orbán se tornou uma figura central da política húngara?
Orbán ganhou projeção no fim do regime comunista húngaro, em 1989, com uma retórica em defesa da democracia e pela saída das tropas soviéticas. Na década seguinte, participou da reconstrução política do país e assumiu mandato no Parlamento em uma Hungria recém-democratizada.
Com o passar do tempo, ele abandonou a imagem de liberal radical e passou a remodelar o Fidesz, partido que ajudou a fundar. A legenda foi se consolidando como uma força de centro-direita voltada à defesa de valores familiares e cristãos. A estratégia lhe permitiu ampliar apoio entre trabalhadores e vencer a eleição para primeiro-ministro em 1998, aos 35 anos.
Depois de um primeiro mandato marcado por turbulências e derrotas eleitorais em 2002 e 2006, Orbán voltou ao poder em 2010. Com maioria de dois terços no Parlamento, promoveu reformas nas estatais e introduziu, em 2012, uma nova Constituição de perfil conservador, que ampliou seus poderes.
O que caracteriza o chamado modelo Orbán?
Em 2014, o premiê passou a definir seu projeto como um “Estado antiliberal”. Segundo o texto original, críticos o acusam há anos de enfraquecer a independência do Judiciário, silenciar a imprensa e manipular o sistema eleitoral. Entre as mudanças atribuídas ao seu governo estão a limitação de poderes da Corte Constitucional e a criação de órgãos de controle da Justiça subordinados ao Executivo.
O sistema eleitoral também foi alterado, com redesenho de distritos e obstáculos à formação de blocos opositores, o que ajudou a consolidar o domínio do Fidesz no Parlamento. Na área de comunicação, o governo criou órgãos reguladores de mídia e, segundo a reportagem, aliados de Orbán passaram a adquirir veículos de imprensa, formando blocos midiáticos alinhados ao governo.
- Limitação de poderes da Corte Constitucional
- Criação de órgãos de controle da Justiça ligados ao Executivo
- Mudanças no sistema eleitoral
- Pressão regulatória sobre a mídia crítica
- Campanhas políticas centradas no confronto com Bruxelas
Essas medidas provocaram embates recorrentes com a União Europeia. A postura anti-imigração de Orbán, descrita na reportagem como hostil a solicitantes de asilo, também ampliou tensões com o bloco europeu. Ainda assim, o premiê transformou o confronto com Bruxelas em ativo político, apresentando-se como defensor dos interesses nacionais diante do que chama de globalismo.
Por que a relação com a União Europeia se deteriorou?
Durante anos, a presença do Fidesz no Partido Popular Europeu, a principal família política da União Europeia, funcionou como proteção política para Orbán. Essa relação se rompeu em 2021, após pressão crescente de outras siglas do grupo diante do que consideravam retrocesso democrático na Hungria.
No ano seguinte, a União Europeia suspendeu bilhões de euros destinados ao país, citando preocupações com corrupção e Estado de direito. Embora parte dos recursos tenha sido liberada após reformas promovidas pelo governo húngaro, cerca de 18 bilhões de euros, equivalentes a R$ 107 bilhões, seguem congelados, segundo a reportagem.
O que explica o desgaste de Orbán às vésperas da eleição?
Após vencer a eleição de 2022, Orbán reforçou sua atuação geopolítica, aproximando-se de Putin, Trump, líderes da extrema direita europeia e nomes latino-americanos como Javier Milei, José Antonio Kast e a família Bolsonaro. Em 2024, durante a presidência semestral da Hungria no Conselho da UE, lançou uma autodenominada “missão de paz” a Moscou, gesto que irritou outros líderes europeus.
Internamente, porém, sua autoridade começou a enfraquecer em meio à estagnação econômica, escândalos e ao surgimento de Peter Magyar como rival competitivo. Segundo o texto, o eleitorado de oposição tende a ser mais jovem, urbano, cosmopolita e com maior nível de escolaridade, concentrado em Budapeste e em outros centros universitários.
A Parada do Orgulho LGBT+ na capital húngara, proibida por Orbán, passou a reunir opositores do Fidesz e atrair multidões cada vez maiores, com apoio da prefeitura de oposição. O cenário agora coloca em teste a capacidade do movimento anti-Orbán, reunido em torno de uma única candidatura, de derrotar nas urnas o sistema político moldado pelo próprio premiê.
“Ele se destaca entre os líderes políticos europeus como alguém diferente”, diz à AFP Emilia Palonen, professora na Universidade de Helsinque. “Líderes antiliberais o veem como um modelo, alguém que teve sucesso e conseguiu tomar o poder”.