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Victória Grabois cobra verdade sobre mortes de familiares na ditadura

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Victória Grabois, de óculos, discursa com semblante sério em evento sobre a memória de familiares da ditadura.
Reprodução / agenciabrasil.ebc.com.br

A ativista e professora Victória Grabois afirmou que seguirá cobrando esclarecimentos sobre a morte do pai, Maurício Grabois, do irmão, André Grabois, e do marido, Gilberto Olímpio, assassinados em 1973 por agentes do Estado na região da Serra do Araguaia, durante a ditadura militar. Nesta terça-feira, 31 de março de 2026, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos realizam, em Salvador, a entrega de 27 atestados de óbito retificados, entre eles o de Maurício Grabois, com a causa da morte corrigida para ação violenta do Estado. De acordo com informações da Agência Brasil, Victória defende que a retificação dos documentos seja acompanhada da abertura de arquivos e da investigação sobre as circunstâncias das mortes e o destino dos corpos.

Aos 82 anos, Victória diz não ter esperança real de descobrir tudo o que ocorreu com seus familiares, mas sustenta que a busca por verdade e memória precisa continuar. Os corpos de Maurício, André e Gilberto Olímpio nunca foram entregues à família. Ao comentar sua atuação, ela relaciona a luta pessoal à necessidade de enfrentar o silenciamento sobre os crimes cometidos no período.

“Não posso parar e faço tudo o que eu puder fazer para divulgar a memória e acabar com o silenciamento”.

“Quero que abram os arquivos e que digam onde mataram, como mataram e quando mataram”.

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O que muda com a retificação dos atestados de óbito?

A entrega dos documentos retificados ocorre às 17h, na Universidade Federal da Bahia, em Salvador. No caso de Maurício Grabois, baiano e deputado constituinte em 1946, a certidão passa a registrar que a morte ocorreu por ação violenta do Estado. A medida integra ações de reparação dirigidas às famílias de mortos e desaparecidos políticos. A Guerrilha do Araguaia, mencionada por Victória, ocorreu na região amazônica entre o fim dos anos 1960 e meados da década de 1970 e se tornou um dos episódios mais emblemáticos da repressão política durante a ditadura.

Victória Grabois, uma das fundadoras do movimento Tortura Nunca Mais, vive no Rio de Janeiro e não participará do evento. Ainda assim, ela afirma que a correção formal dos registros é insuficiente sem investigação efetiva sobre o que ocorreu com as vítimas da ditadura. Sobre o pai, ela destacou a dimensão política e pessoal da perda.

“Meu pai foi um grande homem. Ele deu o seu bem maior, a vida, e levou o seu filho junto, em prol da liberdade do Brasil e da democracia”.

Segundo Victória, a provável data das mortes de Maurício e André Grabois foi 25 de dezembro de 1973. Ela disse ter convivido com o pai até os 29 anos e o descreveu como alguém de princípios, responsável por ensinamentos que levaria para a vida.

Quais outras homenagens e ações foram lembradas?

Na segunda-feira, 30 de março de 2026, o movimento Tortura Nunca Mais homenageou defensores dos direitos humanos com a medalha Chico Mendes, concedida pelo 38º ano consecutivo. A condecoração foi criada como contraponto à medalha do Pacificador, do Exército. Em 2026, a homenagem lembrou o guerrilheiro Francisco Manuel Chaves, desaparecido no Araguaia, e a socióloga Yara Yavelberg, assassinada por agentes do Estado.

A cerimônia também homenageou mães que perderam filhos para a violência policial, entre elas a ativista Solange de Oliveira, fundadora do Movimento Mães em Luto da Zona Leste, em São Paulo. Para Victória, lembrar violações do passado e do presente faz parte do mesmo esforço por memória, justiça e reconhecimento das vítimas.

A ativista também avaliou que filmes brasileiros recentes sobre a ditadura ajudaram a ampliar o interesse social pelo tema. Segundo ela, essas produções contribuíram para que mais pessoas, inclusive em escolas, passassem a discutir as violações ocorridas naquele período. Na avaliação de Victória, a Guerrilha do Araguaia passou a ser percebida de forma mais ampla como fato histórico.

Quais são os desafios apontados pela comissão?

A presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Eugênia Gonzaga, afirmou que a retificação das certidões se mostrou uma das medidas de reparação mais importantes para as famílias. A comissão foi recriada pelo governo federal em 2024, após ter sido extinta na gestão anterior. Ela disse que a comissão pretende realizar as 434 retificações previstas e, se possível, entregar os documentos em cerimônias solenes, com pedido de desculpas.

“É uma iniciativa que vem sendo muito bem recebida e a gente quer, então, fazer as 434 retificações para todas as famílias e, se possível, fazer a entrega delas em ocasião solene, com pedido de desculpas”, afirmou.

Eugênia também criticou a ausência de abertura completa dos arquivos das Forças Armadas. Segundo ela, embora parte dos documentos já esteja em arquivos públicos, ainda faltam respostas definitivas sobre circunstâncias das mortes e locais de enterro de muitos corpos. Para a presidente da comissão, trata-se de uma falha do sistema de justiça brasileiro.

“Apesar de muitos documentos já terem sido revelados, já estarem nos arquivos públicos, a gente não tem a versão definitiva sobre o local das mortes, ou melhor, sobre as circunstâncias de muitas das mortes e os locais de enterro de corpos”, lamenta.

Além do documento relativo a Maurício Grabois, a entrega desta terça-feira inclui certidões para familiares de outras vítimas da ditadura, entre elas nomes retratados em filmes, como Carlos Lamarca e Stuart Edgar Angel Jones.

  • Evento de entrega: 31 de março de 2026, às 17h
  • Local: Universidade Federal da Bahia, em Salvador
  • Total de documentos entregues nesta etapa: 27
  • Total de retificações pretendidas pela comissão: 434

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