A mineradora brasileira Vale fechou um acordo com a empresa chinesa Shandong Shipping para a construção dos primeiros navios oceânicos do mundo movidos prioritariamente a etanol. A parceria, firmada no setor de transporte marítimo de minério de ferro, representa um passo tecnológico vital para a descarbonização das operações logísticas globais de grande escala.
De acordo com informações do Splash247, o contrato estipula o fornecimento de dois gigantescos navios graneleiros da classe Guaibamax, cada um possuindo capacidade para transportar 325 mil toneladas de porte bruto. O compromisso estabelecido entre as corporações possui caráter de longo prazo, com duração fixada em 25 anos. As entregas das primeiras embarcações estão programadas para começar no ano de 2029, e o acordo inclui ainda cláusulas com opções para a encomenda de unidades adicionais no futuro.
Como funcionarão os novos navios graneleiros encomendados pela Vale?
As novas embarcações encomendadas pela Vale serão construídas sob um conceito de engenharia naval focado na transição energética, utilizando tecnologia de combustível triplo. Essa inovação significa que os motores dos navios terão capacidade de operar alternando entre etanol, metanol ou o tradicional combustível de bancas de origem fóssil. Além dessa versatilidade inicial, os graneleiros contarão com um design de engenharia flexível que permitirá uma futura conversão estrutural para operar com gás natural liquefeito (GNL) ou amônia.
O diretor de navegação da companhia brasileira, Rodrigo Bermelho, pontuou a importância estratégica dessa configuração tecnológica para o futuro das exportações de minério de ferro.
A abordagem combina flexibilidade com eficiência e coloca a Vale em uma posição forte para a transição energética no transporte marítimo.
Quais são os impactos ambientais previstos para o transporte marítimo?
A adoção do etanol como matriz energética primária no transporte marítimo de longa distância pode reduzir as emissões prejudiciais ao clima em até 90% quando comparado ao uso do óleo combustível pesado convencional, dependendo da origem e da forma de produção do etanol empregado. O projeto naval não se limita apenas à troca de combustível, mas incorpora tecnologias físicas complementares para maximizar a eficiência energética durante as longas travessias entre a América do Sul e a Ásia.
Os novos navios da classe Guaibamax sairão dos estaleiros equipados com cinco velas rotativas (tecnologia de propulsão auxiliar eólica) e uma série complexa de atualizações hidrodinâmicas. Essa combinação tem como meta garantir um corte adicional de 15% no consumo de combustível e nas emissões, em relação aos navios de mesma classe que compõem a frota operante atual.
O que é o programa Ecoshipping e quais os seus próximos passos?
Esta encomenda inédita é um dos pilares do programa Ecoshipping da mineradora, uma iniciativa contínua dedicada à pesquisa e aplicação de sistemas de propulsão de baixo carbono. Para chegar a este modelo técnico, a companhia conduziu estudos preliminares em colaboração com a desenvolvedora especializada de motores Everllence, focando justamente em criar sistemas mecânicos preparados para o uso em massa de etanol oceânico.
A estratégia de renovação ecológica da frota engloba as seguintes frentes principais firmadas com parceiros asiáticos:
- A entrega programada de dez unidades bicombustíveis operadas a metanol pela parceira Shandong a partir de 2027.
- O desenvolvimento de duas unidades extras preparadas para uso de metanol e etanol, fruto de uma carta de intenções oficializada em março na cidade portuária de Qingdao.
- A instalação sistemática e contínua de velas rotativas de alta tecnologia em embarcações de grande porte que já transportam minério de ferro.
Todas essas intervenções navais e logísticas são peças fundamentais para atingir a meta central da corporação: a redução drástica das emissões de escopo 3, que englobam a cadeia de valor indireta. A mineradora projeta cortar essas emissões em pelo menos 15% até o ano de 2035, considerando que a movimentação transoceânica de cargas representa uma considerável fatia dessa pegada de carbono global.