
Dezenas de moradores da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, protestaram na noite de 8 de abril contra o custo bilionário da proposta de instalação da nova usina de gás de Canadys. As manifestações ocorreram na cidade de Columbia, durante duas audiências consecutivas da Comissão de Serviço Público do estado. Os consumidores temem que o projeto encareça ainda mais as tarifas de energia elétrica cobradas pelas concessionárias Santee Cooper e Dominion Energy South Carolina (DESC).
De acordo com informações do CleanTechnica, a insatisfação popular ocorre em um momento de alta demanda energética e volatilidade nos preços do gás extraído por fraturamento hidráulico. O orçamento inicial da usina, apresentado em agosto de 2024, era de aproximadamente R$ 12,5 bilhões (US$ 2,5 bilhões). No entanto, as estimativas atuais já apontam para um valor que ultrapassa a marca de R$ 25 bilhões (US$ 5 bilhões).
Por que o custo da usina de Canadys dobrou tão rápido?
O salto financeiro do projeto está diretamente ligado a uma combinação de fatores econômicos e logísticos que afetam o mercado de infraestrutura de energia. A Comissão de Serviço Público do estado possui o poder legal de estabelecer um teto de gastos, mas os consumidores temem que a conta final seja repassada integralmente para as faturas de luz da população local, que já sofre com reajustes constantes.
Os especialistas apontam que os custos de construção e operação da nova infraestrutura podem aumentar ainda mais devido aos seguintes motivos principais:
- Atrasos crônicos na cadeia de suprimentos para a aquisição de componentes industriais da usina.
- Fatores macroeconômicos em escala global, como a imposição de tarifas comerciais e a escalada ininterrupta da inflação.
- Despesas imprevistas relacionadas à construção de novos gasodutos e linhas de transmissão de energia para o escoamento da produção.
A preocupação com o impacto financeiro no orçamento das famílias norte-americanas foi o ponto central das audiências. Kenni Cummings, organizador de inquilinos e cliente da Dominion Energy, destacou a dificuldade que muitas pessoas já enfrentam para manter o acesso a serviços essenciais.
“No verão as coisas são brutais, no inverno as coisas são difíceis. As pessoas ligam o ar-condicionado e o aquecimento para ficarem seguras. Essa é uma realidade de segurança, mas a verdade é que elas estão escolhendo entre pagar a conta de luz e comprar mantimentos ou remédios todos os meses.”
A expansão de data centers justifica o investimento bilionário?
Um dos argumentos oficiais apresentados pela Santee Cooper para justificar a escala colossal da usina de gás é a expectativa do mercado de que diversos data centers sejam construídos na região nos próximos anos. Esse cenário reflete um desafio energético global que também afeta o Brasil, onde o setor elétrico discute como suprir a alta demanda de infraestrutura tecnológica sem encarecer as tarifas para o consumidor comum ou ampliar a dependência de termelétricas fósseis de maior custo. Analistas do setor alertam sobre os altos riscos financeiros de basear um investimento bilionário em projeções especulativas. Até o momento, as empresas de tecnologia não firmaram compromissos contratuais concretos para a instalação desses complexos de processamento de dados no estado norte-americano.
A dependência de infraestruturas baseadas em combustíveis fósseis também gerou críticas sobre o planejamento de longo prazo das empresas de energia. A cliente da Dominion Energy, Maya Rivera-Vazquez, defendeu a adoção de matrizes renováveis mais modernas.
“Não devemos repetir os erros investindo em infraestrutura cara que pode não atender às nossas necessidades de longo prazo. Nossa região está crescendo e precisamos de energia confiável, mas isso não significa adotar soluções obsoletas.”
Qual é o futuro das usinas de carvão na Carolina do Sul?
Além das discussões exclusivas sobre o gás natural, o futuro das antigas operações movidas a carvão no estado também esteve em pauta. No Plano Integrado de Recursos divulgado recentemente pela concessionária DESC, a empresa indicou o interesse estratégico de manter a matriz a carvão em funcionamento de forma simultânea à nova usina de Canadys. O documento governamental menciona os anos de 2032 e 2034 para as possíveis desativações, mas falha em formalizar um compromisso real de encerramento das atividades operacionais dessas instalações poluentes.
A organização ambiental Sierra Club alertou o poder público sobre os graves impactos na saúde da população e os elevados custos operacionais de manter essas matrizes em funcionamento. O organizador de campanhas para as Carolinas, Paul Black, criticou as incertezas contratuais do projeto e a postura do setor corporativo.
“É também muito caro e arriscado para os contribuintes — e prejudicial à saúde pública — se a Santee Cooper e a Dominion mantiverem três usinas a carvão envelhecidas on-line, além de construir uma nova e grande usina a gás.”
A entidade de proteção ambiental exige que qualquer eventual aprovação regulatória para o desenvolvimento da usina de gás esteja condicionada ao fechamento obrigatório das antigas instalações de Wateree, Williams e Winyah. Apesar da pressão da sociedade civil, a direção da Santee Cooper segue se recusando a garantir a desativação integral do complexo de Winyah, mesmo caso a operação de gás entre em funcionamento comercial absoluto nos próximos anos.