Urso-pardo nos Pireneus atinge marca de 130 animais com risco genético - Brasileira.News
Início Meio Ambiente Urso-pardo nos Pireneus atinge marca de 130 animais com risco genético

Urso-pardo nos Pireneus atinge marca de 130 animais com risco genético

0
7
A detailed view of a grizzly bear peeking from behind a tree in its natural habitat.
A detailed view of a grizzly bear peeking from behind a tree in its natural habitat. Foto: Miguel Cuenca — Pexels License (livre para uso)

A população de urso-pardo na cordilheira dos Pireneus, região montanhosa que divide a Espanha, a França e Andorra, atingiu a marca estimada de 130 animais no ano de 2025. O crescimento populacional ocorreu após décadas de esforços de conservação, impulsionados pela reintrodução de exemplares de outras regiões europeias para evitar a extinção local. No entanto, o sucesso numérico agora esbarra em um desafio biológico crítico: a alta taxa de consanguinidade entre os filhotes, o que ameaça a viabilidade futura da espécie no continente.

De acordo com informações do Mongabay Global, a subpopulação da espécie, cientificamente denominada Ursus arctos arctos, tem apresentado um aumento constante desde meados da década de 1990. Naquela época, o grupo local beirou o desaparecimento completo, registrando um número mínimo de apenas cinco indivíduos vivos em todo o território montanhoso.

Como ocorreu a recuperação da população de ursos-pardos?

A partir do ano de 1996, pesquisadores e governos iniciaram um programa de manejo ambiental que reintroduziu 11 ursos trazidos da Eslovênia. O objetivo principal dessa ação era salvar a população nativa e recuperar o equilíbrio ecológico na região fronteiriça europeia. A estratégia funcionou para aumentar o número de indivíduos, registrando uma taxa média de crescimento populacional superior a 11% ao ano ao longo dos últimos 18 anos. Contudo, os dados genéticos revelaram um padrão preocupante sobre a reprodução desses mamíferos.

A análise das linhagens mostrou que apenas três dos animais eslovenos reintroduzidos foram responsáveis por gerar a grande maioria dos descendentes. Atualmente, entre 85% e 90% de todos os ursos-pardos que habitam os Pireneus descendem diretamente de apenas duas fêmeas e um macho. Esse afunilamento genético gerou um cenário em que os animais, ao entrarem na terceira ou quarta geração de cruzamentos, encontram poucos parceiros não aparentados para o acasalamento.

— Publicidade —
Google AdSense • Slot in-article

Por que a consanguinidade ameaça o futuro da espécie?

O cruzamento entre parentes próximos eleva substancialmente os riscos de problemas de saúde, diminuição da taxa de natalidade e maior suscetibilidade a doenças. No ano de 2025, os pesquisadores registraram o nascimento de oito filhotes, uma queda expressiva em comparação aos 24 nascimentos documentados no ano anterior. Desses oito novos ursos, apenas dois não possuem parentesco próximo. Os demais apresentam uma taxa de endogamia calculada entre 20% e 28%, um índice biológico equivalente ao cruzamento entre primos de primeiro grau em humanos.

No Brasil, desafios semelhantes de preservação e variabilidade genética são enfrentados em projetos de conservação de espécies ameaçadas, como o mico-leão-dourado na Mata Atlântica. Em casos assim, a fragmentação do habitat exige o manejo cuidadoso e a translocação de indivíduos para evitar o isolamento reprodutivo e o enfraquecimento genético das populações.

Representantes de organizações ambientais acompanham o caso europeu com extrema atenção. Alain Reynes, diretor da Pays de l’Ours – Adet, uma instituição francesa focada na preservação da espécie, manifestou sua preocupação através de um comunicado oficial.

“Não podemos mais fechar os olhos, é urgente deter a consanguinidade, sob o risco de que ela se torne incontrolável e permanentemente prejudicial à população de ursos-pardos. Ainda há tempo, mas a inação não é mais uma opção.”

Para o porta-voz da ADLO Pirineo, associação catalã voltada para ursos e lobos, Pau Vázquez, o cenário exige respostas rápidas.

“A taxa de endogamia nos mostra altos níveis de consanguinidade que podem afetar o futuro da espécie, reduzindo a taxa de natalidade e tornando os filhotes mais vulneráveis e suscetíveis a doenças. Esse declínio na taxa de natalidade é um alerta.”

Quais são as propostas para salvar a diversidade genética?

Diante dessa realidade incontornável, os especialistas franceses apontam caminhos diretos para contornar o problema genético. A principal sugestão da Pays de l’Ours envolve o governo da França, propondo:

  • A introdução de mais 30 novos ursos na cordilheira dos Pireneus até o ano de 2040.
  • A expansão da diversidade de linhagens para reduzir os cruzamentos consanguíneos em gerações futuras.
  • O monitoramento contínuo das novas famílias por meio de análises genéticas e mapeamento geográfico permanente.

Esses levantamentos anuais são feitos a partir de análises laboratoriais rigorosas. No censo mais recente, os cientistas avaliaram 801 amostras de pelos e excrementos recolhidas ao longo de toda a área montanhosa.

O mapeamento da localização exata dos grupos populacionais também trouxe dados essenciais sobre o comportamento territorial da espécie na Europa Ocidental. Os registros do censo demonstraram que 41% dos indivíduos foram detectados de forma exclusiva em território francês, enquanto 29% transitaram apenas pela Espanha ou por Andorra. O restante da população, equivalente a 30%, possui o hábito constante de cruzar as fronteiras nacionais do bloco europeu durante seus deslocamentos habituais pela floresta.

Qual o impacto econômico e os desafios para os produtores locais?

Além da preocupação com a saúde genética dos animais, as autoridades enfrentam o desafio da coexistência entre os predadores de grande porte e a atividade agropecuária nas montanhas. O governo monitora atentamente os incidentes envolvendo rebanhos e instalações de apicultura na região. Durante o ano de 2025, os levantamentos contabilizaram um total de 321 ataques de ursos a gado em toda a cordilheira, sendo a imensa maioria registrada dentro das fronteiras da França.

Em território espanhol, a organização ADLO Pirineo documentou 48 ocorrências no mesmo período. Desse total de ataques, 32 incidentes envolveram o rebanho bovino e 16 afetaram diretamente a produção de colmeias de abelhas.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here