Illinois enfrenta uma crise de saúde pública ligada às tubulações de chumbo usadas no abastecimento de água, e um relatório divulgado em março de 2026 propõe transformar a substituição dessa infraestrutura em um motor de empregos ao longo dos próximos dez anos. A análise defende que autoridades estaduais e locais acelerem a troca das ligações de água em comunidades mais expostas ao chumbo, com foco também na formação de uma força de trabalho mais diversa. De acordo com informações do Grist, o plano prevê a criação de até 90 mil postos de trabalho em dez anos, caso o déficit bilionário de financiamento seja coberto.
Embora o caso trate de um estado dos Estados Unidos, o tema tem paralelo com debates de saneamento e saúde pública no Brasil, onde a qualidade da água e a renovação de redes antigas também são temas de interesse público e de políticas de infraestrutura. A exposição ao chumbo é associada a riscos à saúde, especialmente em populações mais vulneráveis.
A proposta foi elaborada com participação de organizações como Metropolitan Planning Council, Current, Elevate e HIRE360. O ponto de partida é o tamanho do problema: quase 1,5 milhão de ramais de serviço — tubulações que levam água potável a residências e empresas — contêm chumbo ou são suspeitos de conter a substância, associada a problemas cognitivos, reprodutivos e cardiovasculares.
Qual é a dimensão do problema das tubulações de chumbo em Illinois?
Segundo o texto, Illinois tem o maior número de tubulações de chumbo dos Estados Unidos. A estimativa estadual aponta 667 mil linhas de serviço com chumbo já identificadas e outras 820 mil suspeitas. Somente Chicago concentra quase 30% desse total, o que ajuda a explicar a dimensão do desafio para a infraestrutura urbana e para a saúde pública.
A substituição dessas linhas é cara. Um relatório de 2022 da Agência de Proteção Ambiental de Illinois apontou que a troca de uma única linha de serviço pode custar de R$ 4.000 a R$ 13.000, em valores originalmente expressos em dólar no texto-fonte. Em Chicago, autoridades municipais estimaram um custo médio superior a R$ 30.000 por linha, também conforme os valores mencionados originalmente na reportagem.
Quanto custaria a substituição total e de onde viriam os recursos?
Autoridades estaduais estimam que a troca de todas as tubulações conhecidas ou suspeitas de conter chumbo em Illinois custaria entre R$ 6 bilhões e R$ 10 bilhões, conforme os montantes informados na reportagem original. Parte desse dinheiro poderia vir da Infrastructure Investment and Jobs Act, lei federal de infraestrutura aprovada no governo Biden, que reservou R$ 15 bilhões ao longo de cinco anos para ajudar estados a substituir tubulações de chumbo.
A estimativa é que Illinois receba cerca de R$ 1 bilhão desse pacote federal. Ainda assim, os defensores do plano argumentam que esse valor não cobre a necessidade do estado. O relatório sustenta que parlamentares estaduais precisam aprovar uma fonte de financiamento dedicada, contínua e previsível para fechar a lacuna de vários bilhões de dólares e evitar atrasos ou ineficiência nas obras.
“Quanto mais tempo adiarmos os cuidados com a nossa infraestrutura de água, mais caro isso vai ficar, maior será a pressão de aumento nas tarifas de água para lidar com isso, e mais pessoas ficarão em uma situação em que não terão acesso a água potável segura e limpa”, disse Justin Williams, gerente sênior do Metropolitan Planning Council.
Como a substituição das tubulações pode impactar o mercado de trabalho?
Com base em projeções da American Water Works Association e da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, os autores do relatório calcularam que os recursos federais já destinados poderiam gerar cerca de dois mil empregos diretos e nove mil indiretos. Se o déficit de financiamento for coberto pelos legisladores, esses números poderiam subir para 35 mil empregos diretos e 55 mil indiretos, totalizando 90 mil vagas ao longo dos dez anos seguintes à implementação do plano.
Para os autores, a previsibilidade de recursos é central para que programas de aprendizagem e formação profissional consigam ampliar o número de participantes. Sem garantia de longo prazo, empregadores e entidades de treinamento tendem a evitar a expansão de vagas e estruturas voltadas para novas turmas.
“É um pouco como o dilema do ovo e da galinha: a menos que se saiba quanto dinheiro vai ser destinado a isso — quantas oportunidades estão a caminho — eles não vão adicionar mais pessoas aos programas de aprendizagem”, afirmou Jay Rowell, diretor executivo da HIRE360.
O que o relatório propõe além da troca da infraestrutura?
Um dos eixos centrais da análise é diversificar os ofícios da construção civil. Um levantamento sobre a força de trabalho de Chicago mostrou que apenas 3,8% dos aprendizes registrados são mulheres e somente 10% são negros. Para enfrentar essa desigualdade, o relatório recomenda que concessionárias e municípios incluam exigências de diversidade e equidade nos contratos dos projetos.
Em síntese, os autores defendem que Illinois tem a oportunidade de enfrentar dois problemas ao mesmo tempo: reduzir a exposição ao chumbo na água potável e ampliar o acesso a empregos em uma economia mais inclusiva. O texto, porém, destaca que os obstáculos financeiros e políticos seguem elevados, apesar de defensores da proposta afirmarem que o custo da inação pode ser ainda maior. Para o leitor brasileiro, o caso também ilustra como obras de saneamento podem ser tratadas ao mesmo tempo como medida de saúde pública e política de geração de empregos.
- Illinois tem quase 1,5 milhão de linhas com chumbo ou suspeitas
- Chicago concentra quase 30% dessas tubulações
- O custo total estimado varia de R$ 6 bilhões a R$ 10 bilhões
- Os recursos já previstos poderiam gerar 11 mil empregos
- Com financiamento adicional, o total pode chegar a 90 mil vagas em dez anos