
A descoberta de um macaco-narigudo (Nasalis larvatus) gravemente ferido próximo a uma linha férrea na província de Samut Sakhon, na Tailândia, em janeiro de 2026, levantou sérias suspeitas sobre o avanço do tráfico transfronteiriço de espécies ameaçadas de extinção. O animal, reconhecido por suas características faciais únicas e endêmico da ilha de Bornéu, passou por intervenções cirúrgicas de amputação e agora encontra-se sob a tutela das autoridades ambientais tailandesas.
De acordo com informações do Mongabay Global, o resgate inicial foi realizado por moradores locais, que encaminharam o primata para uma clínica veterinária da região. Após os profissionais de saúde identificarem tratar-se de uma espécie estrangeira, o espécime foi transferido imediatamente para o centro de resgate de vida selvagem de Ban Pong. A instalação é administrada diretamente pelo Departamento de Parques Nacionais, Vida Selvagem e Conservação de Plantas da Tailândia (DNP).
Como o macaco-narigudo foi parar na Tailândia?
A presença física do primata no país do Sudeste Asiático gerou um alerta imediato entre os especialistas, principalmente porque a espécie habita de forma exclusiva a ilha de Bornéu, um território que é dividido politicamente entre a Malásia, o sultanato de Brunei e a Indonésia. Nessas três nações, o mamífero goza de proteção legal rigorosa contra a exploração.
Adicionalmente, a espécie está devidamente catalogada no Apêndice I da CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção). Esta classificação técnica significa que qualquer tipo de comércio internacional com fins lucrativos é terminantemente proibido, com exceções concedidas unicamente para pesquisas científicas específicas ou programas oficiais de reprodução para conservação. O Brasil é signatário deste acordo internacional, fiscalizado nacionalmente pelo Ibama, o que reforça o combate global a redes de contrabando que também ameaçam a biodiversidade brasileira.
Kanpicha Han-Asa, médica veterinária atuante no DNP, detalhou as suspeitas de que o animal tenha sido vítima de redes de contrabando internacional durante a travessia de fronteiras:
Acredito que este macaco foi trazido ilegalmente, pois não há registros dele no banco de dados da CITES.
Quais são os impactos do tráfico internacional na espécie?
A situação acendeu um debate sobre as rotas clandestinas operadas na Ásia. Chris Shepherd, atuando como defensor sênior de conservação no Centro de Diversidade Biológica, questionou publicamente a origem e a forma de transporte desses animais, exigindo que as autoridades da Tailândia realizem investigações mais profundas sobre o caso.
A preocupação dos especialistas é fundamentada em observações e dados recentes que demonstram a fragilidade da espécie fora de seu habitat natural. Conservacionistas apontam os seguintes fatores críticos relacionados ao aumento da exploração:
- Um estudo científico recente revelou um aumento preocupante na comercialização irregular da espécie desde o ano de 2016;
- A sobrevivência do animal em cativeiro é extremamente difícil devido à sua dieta especializada, que é composta majoritariamente por folhas específicas;
- As populações selvagens em Bornéu já sofrem forte pressão ambiental decorrente da perda contínua de seu habitat natural;
- No ano de 2024, as autoridades de segurança registraram a interceptação de outro macaco-narigudo nas dependências de um aeroporto na Índia;
- Pelo menos um outro exemplar vivo da espécie foi localizado e confirmado pela reportagem original em um zoológico de administração privada situado dentro da própria Tailândia, no mês de março.
Qual será o destino do animal resgatado na ferrovia?
Embora as estatísticas formais de tráfico deste primata específico ainda sejam numericamente baixas se comparadas a outras espécies, Shepherd alertou que qualquer incremento no comércio internacional agravará as ameaças contra esses animais já em situação de perigo iminente. Diante deste cenário de vulnerabilidade, as organizações de preservação ambiental intensificaram os pedidos por medidas restritivas mais duras aos governos locais.
As demandas das entidades de proteção incluem a implementação imediata de protocolos de fiscalização mais rigorosos nos terminais de passageiros e cargas dos aeroportos internacionais, bem como a formulação de leis que proíbam definitivamente a posse privada de primatas por cidadãos comuns, visando blindar espécies silvestres contra as operações do mercado negro mundial.
Enquanto as discussões logísticas e judiciais avançam, o animal resgatado segue em processo de recuperação física nas instalações de Ban Pong. Os ferimentos gravosos resultaram na amputação obrigatória de um de seus dedos e também de uma parte significativa de sua cauda. Em virtude das limitações permanentes causadas pelas lesões físicas, a reintrodução na natureza selvagem foi totalmente descartada pelos veterinários. Contudo, os especialistas do departamento governamental estão avaliando ativamente as possibilidades para repatriá-lo à ilha de Bornéu de forma segura assim que seu quadro clínico atingir estabilidade completa.