As cadeias de suprimentos da América do Norte enfrentam uma reconfiguração estrutural devido a pressões tarifárias e variações cambiais. Esse rearranjo, frequentemente impulsionado pela tendência de nearshoring (transferência da produção para mais perto do mercado consumidor final), impacta diretamente a estratégia de parceiros comerciais globais, incluindo o Brasil. Durante o mês de fevereiro de 2026, dados alfandegários dos Estados Unidos, do Canadá e do México demonstraram uma queda expressiva na arrecadação de impostos mexicanos, enquanto os mercados canadense e estadunidense registraram aumento de importações e déficits comerciais.
De acordo com informações do portal especializado FreightWaves, a redução das receitas alfandegárias ocorre simultaneamente à estabilidade dos volumes de comércio físico. Esse fenômeno indica que corporações estão alterando suas rotas logísticas e estratégias de fornecimento para reduzir a exposição a novas taxas internacionais.
Como as tarifas impactaram a arrecadação alfandegária no México?
No território mexicano, a Agência Nacional de Aduanas do México (ANAM) reportou que as receitas caíram pelo segundo mês consecutivo. Entre os meses de janeiro e fevereiro, a arrecadação atingiu US$ 11,49 bilhões, representando uma retração real de 13% em comparação ao mesmo período do ano anterior. O recuo mais acentuado foi observado no Imposto sobre o Valor Agregado (IVA) cobrado sobre importações, que despencou 22,6%, enquanto a receita de impostos de importação diminuiu sete por cento.
As alfândegas nas fronteiras terrestres do México foram severamente afetadas, registrando uma queda de 18,2% nas receitas. O valor declarado das mercadorias movimentadas em passagens cruciais, como Nuevo Laredo, Tijuana e Ciudad Juárez, encolheu 8,1%. Além disso, a moeda local valorizou cerca de 15,7% em fevereiro em relação ao ano anterior, o que reduziu a base de cálculo utilizada para os tributos e encareceu os custos operacionais.
Qual é o cenário das importações no Canadá e nos Estados Unidos?
O cenário norte-americano é de forte disparidade. No Canadá, as importações saltaram 8,4%, alcançando o patamar recorde de US$ 72,1 bilhões. Esse avanço foi impulsionado por maiores compras de ouro e veículos automotores provenientes dos Estados Unidos. Consequentemente, o déficit comercial do país foi ampliado para US$ 5,7 bilhões, configurando o maior índice registrado desde o mês de agosto do ano passado.
Em paralelo, os Estados Unidos também viram seu déficit comercial de bens e serviços se alargar para US$ 57,3 bilhões. O Bureau of Economic Analysis (agência de estatísticas do governo estadunidense) destacou que as importações cresceram US$ 15,2 bilhões em fevereiro, superando de forma contundente o aumento das exportações, que foi de US$ 12,6 bilhões. O déficit estadunidense com o México subiu em US$ 4,1 bilhões, totalizando US$ 16,8 bilhões apenas naquele mês.
O que indicam os movimentos logísticos na América do Norte?
O conjunto de indicadores econômicos aponta para três fatores centrais nas operações transfronteiriças atuais:
- O México arrecada menos impostos mesmo mantendo os valores comerciais relativamente estáveis.
- O Canadá apresenta volumes recordes na importação de bens, com destaque para metais e automóveis.
- Os Estados Unidos ampliam compras de parceiros fundamentais, aprofundando a lacuna de sua balança comercial.
Essa dinâmica comprova que o volume de carga física continua a atravessar as fronteiras, mas os locais de fornecimento, os caminhos logísticos e os valores declarados estão sendo progressivamente ajustados pelas indústrias globais.
Quais empresas anunciaram expansões de infraestrutura recentes?
Acompanhando essas reestruturações na cadeia de suprimentos, o provedor logístico Arvato inaugurou um novo centro em Denton, no estado do Texas. Com foco no suporte à infraestrutura de inteligência artificial e computação em nuvem, a instalação de 270 mil pés quadrados (cerca de 25 mil metros quadrados) servirá a um dos mercados de data centers que mais cresce nos Estados Unidos. O espaço lidará com envios de hardware sensível e entregas especializadas para servidores.
Em outra frente comercial, a fabricante brasileira de utilidades domésticas Tramontina iniciou as operações de sua nova fábrica em Lerma, no Estado do México. A unidade, com capacidade para produzir até 100 mil peças mensais de panelas de alumínio, visa otimizar a distribuição nas Américas. A planta representa a primeira unidade de manufatura da empresa no país e será integrada às operações comerciais mantidas no território mexicano desde o ano de 1997. Para as indústrias brasileiras, estabelecer bases no México tem se tornado um caminho estratégico para aproveitar as isenções tarifárias do T-MEC (acordo de livre comércio entre EUA, México e Canadá, que substituiu o Nafta) e contornar barreiras de importação diretas do mercado estadunidense, refletindo a estratégia corporativa de aproximar a produção dos mercados consumidores mais relevantes.


