Um superaquecimento nos painéis de controle do reator de pesquisa IEA-R1, localizado no campus da Universidade de São Paulo (USP), forçou a evacuação do prédio na tarde de segunda-feira, 23 de março de 2026. O incidente ocorreu nas instalações do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), na capital paulista, e deverá atrasar a retomada das pesquisas e a produção nacional de radioisótopos essenciais para o uso médico.
De acordo com informações da Agência Brasil, o evento gerou fumaça e danificou equipamentos estruturais, mas foi rapidamente contido pelas equipes de segurança do local. O reator possui 68 anos de operação, conta com um núcleo de urânio e é considerado um equipamento pioneiro e fundamental para o avanço da ciência nuclear brasileira. O Ipen é vinculado à USP e atua em pesquisa nuclear, produção de radiofármacos e aplicações tecnológicas voltadas, entre outras áreas, à saúde.
O que causou o incidente no reator da USP?
Até o momento, as autoridades não identificaram a causa exata do superaquecimento. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) confirmou que dois painéis de controle foram severamente comprometidos. O reator já se encontrava desligado no momento da ocorrência, pois passava por readequações desde o início de novembro de 2025, após a identificação de alterações em elementos refletores de grafite.
“A empresa emprestou uma bomba que já está em operação no local, para remoção total do ar. Como o reator não estava operando, os painéis particularmente não executavam qualquer ação. Já foi contratada uma empresa para execução do laudo técnico e orçamento para instalação de novos painéis”
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Diversos órgãos realizaram vistorias conjuntas no local para garantir a estabilidade da infraestrutura. O prédio afetado foi inspecionado detalhadamente pelas seguintes entidades especializadas:
- Brigada interna de segurança mantida pelo próprio Ipen
- Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo
- Equipes do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP)
- Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), acionada para medir a qualidade do ar
Houve vazamento de radiação ou risco à população?
A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) garantiu que o incêndio teve natureza estritamente localizada. As chamas atingiram apenas um conjunto de racks, afetando o cabeamento, parte do teto e uma cadeira na sala de controle. Os inspetores da ANSN acessaram o ambiente e confirmaram, de forma oficial, a total ausência de risco radiológico associado ao evento.
A direção do Ipen esclareceu que, mesmo com o equipamento principal fora de operação há meses para manutenção, alguns sistemas periféricos precisam permanecer constantemente energizados. Isso serve para manter ativas funções de segurança críticas, como a refrigeração dos circuitos primário e secundário, além da aquisição de dados operacionais.
“Embora o evento não tenha representado comprometimento da segurança nuclear, a equipe responsável pela operação optou pela suspensão imediata das atividades como medida prudencial, a fim de evitar a progressão de danos a componentes do núcleo”
Qual a importância do reator IEA-R1 para o país?
O Brasil conta atualmente com quatro reatores nucleares dedicados à pesquisa, todos operados sob a estrita supervisão da Cnen. O IEA-R1, instalado na estrutura da USP, é o maior de todo o território nacional, operando com uma potência licenciada de 5 MW. Ele possui 12 estações de pesquisa que atuam diretamente em setores estratégicos da economia e da saúde pública.
A principal função desses equipamentos de alta complexidade é a produção contínua de radioisótopos utilizados na medicina nuclear para diagnósticos e tratamentos oncológicos. Além disso, as instalações fornecem fontes radioativas para a indústria agrícola, impulsionam pesquisas científicas independentes e servem como principal laboratório para a formação e o treinamento de profissionais licenciados no setor nuclear brasileiro.
Para expandir e modernizar essa estrutura, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) conduz a construção de um novo reator na cidade de Iperó, no interior paulista. Com capacidade de 30 MW e previsão de entrega para o ano de 2029, a nova instalação buscará garantir a autossuficiência do país na produção de Molibdênio-99, componente crucial para a obtenção do Tecnécio-99m, elemento amplamente empregado em diagnósticos médicos. Iperó fica na Região Metropolitana de Sorocaba, no interior de São Paulo, onde também está o Centro Experimental Aramar, polo estratégico do programa nuclear brasileiro. O projeto em Iperó também possibilitará o desenvolvimento de combustíveis e tecnologias para pequenos reatores modulares.

