Summit Carbon Solutions, empresa de Iowa, passou a afirmar, ao longo da evolução de sua comunicação pública entre 2021 e 2026, que seu projeto de gasoduto para transporte de CO2 no Meio-Oeste dos Estados Unidos poderá ser usado na ampliação da produção doméstica de petróleo e gás por recuperação avançada, em vez de se concentrar apenas no armazenamento subterrâneo de carbono. A mudança ocorre após anos de disputas regulatórias e judiciais sobre o empreendimento em estados como Iowa, Dakota do Norte e Dakota do Sul, em um contexto político mais alinhado à agenda de expansão de combustíveis fósseis defendida pelo presidente Donald Trump. De acordo com informações da Inside Climate News, a empresa alterou sua comunicação pública sobre o projeto ao longo do tempo.
O tema tem reflexos indiretos para o Brasil porque envolve a competitividade do etanol em um dos principais mercados do biocombustível no mundo. Mudanças na forma como produtores americanos reduzem a intensidade de carbono do etanol podem influenciar a concorrência internacional com o combustível brasileiro.
A reportagem informa que o plano da Summit foi apresentado inicialmente como uma solução climática: captar dióxido de carbono de usinas de etanol e transportá-lo para armazenamento geológico no subsolo de Dakota do Norte. Agora, segundo o texto, a companhia diz que o gasoduto também será usado em recuperação avançada de petróleo, processo em que o CO2 é injetado em poços para facilitar a extração. A técnica pode aumentar a quantidade de óleo retirada de um reservatório ao tornar o fluido mais fácil de bombear.
Como o projeto foi apresentado no início?
Quando a Summit protocolou, em 2021, o pedido para construir o gasoduto chamado Midwest Carbon Express na Comissão de Serviços Públicos de Iowa, o argumento central combinava redução de emissões e defesa econômica da cadeia do milho e do etanol. A empresa sustentava que a captura de carbono ajudaria a cortar gases de efeito estufa e abriria mercados de combustíveis de menor intensidade carbônica.
Segundo a reportagem, versões anteriores do site da empresa afirmavam que o projeto não seria usado para recuperação avançada de petróleo. Em vez disso, a iniciativa era divulgada como uma forma de reduzir emissões por meio do sequestro subterrâneo de carbono. Em outro momento, o empreendimento também foi descrito como etapa importante para o desenvolvimento de combustível sustentável de aviação com menor pegada de carbono.
O texto relata ainda que a Inside Climate News analisou, com base em registros do Internet Archive, como a linguagem da empresa mudou entre 2021 e 2026. Em 2021, o site defendia com urgência a meta de emissões líquidas zero até 2050 e associava a captura e o armazenamento de carbono ao cumprimento da meta de limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius prevista no Acordo de Paris.
O que motivou a mudança de discurso?
De acordo com a reportagem, a Summit enfrenta dificuldades para tirar o projeto do impasse de licenciamento e ainda lida com batalhas judiciais ligadas a direitos de propriedade privada. Nesse ambiente, a empresa passou a operar em um mercado de energia e em uma conjuntura política diferentes dos que existiam no início do projeto.
A nova mensagem da companhia, segundo o texto, se aproxima da política de Trump resumida na expressão “drill, baby, drill”, voltada a reforçar a produção americana de combustíveis fósseis. A reportagem também aponta que opositores do gasoduto criticam a mudança e afirmam que a empresa ajusta seus argumentos conforme a conveniência para tentar viabilizar a obra.
“É simplesmente o que for conveniente para eles naquele momento”, disse Jess Mazour, coordenadora de conservação do capítulo de Iowa do Sierra Club.
A matéria informa que, no fim de 2024, a organização entrou com ação judicial contestando a aprovação da licença da Summit pela comissão reguladora de Iowa. O texto também registra que a empresa não respondeu a repetidos pedidos de comentário por email e telefone sobre a mudança de rumo do projeto.
Qual é o interesse econômico por trás do empreendimento?
A reportagem destaca que o projeto sempre esteve ligado a incentivos econômicos relevantes. O governo federal dos Estados Unidos oferece créditos tributários para tecnologias de captura e armazenamento de carbono. Segundo o texto, o Congresso ampliou esses incentivos em 2018 e novamente em 2022, chegando a até US$ 85 por tonelada métrica de CO2 capturada e armazenada permanentemente.
O uso de carbono capturado para recuperação avançada de petróleo também se qualifica para créditos fiscais, embora menores, de até US$ 65 por tonelada métrica, segundo a reportagem. Nesse cenário, o reposicionamento da Summit aproxima o projeto não só da agenda política pró-combustíveis fósseis, mas também de um modelo de negócio potencialmente lucrativo.
- O projeto foi lançado em 2021 como solução climática ligada ao etanol.
- A empresa agora admite o uso do CO2 para recuperação avançada de petróleo.
- O empreendimento enfrenta impasses regulatórios e disputas judiciais.
- Créditos tributários federais continuam sendo parte central da equação econômica.
A reportagem também contextualiza que a pressão sobre a indústria do etanol cresceu com o avanço da demanda por veículos elétricos nos Estados Unidos após 2018. Nesse cenário, reduzir a intensidade de carbono do etanol passou a ser visto como forma de manter a competitividade do combustível em mercados com padrões de energia renovável e de proteger a demanda por milho. Para o leitor brasileiro, isso ajuda a explicar por que o tema ultrapassa o debate ambiental americano: Brasil e Estados Unidos estão entre os principais produtores mundiais de etanol.
Além disso, o texto lembra que a Summit Agricultural Group, controladora da Summit Carbon Solutions, lançou em 2023 a subsidiária Summit Next Gen e anunciou planos para desenvolver, no Texas, uma usina de etanol para combustível sustentável de aviação. No entanto, segundo a reportagem, não houve atualizações anunciadas sobre esse projeto desde a compra de uma área de 60 acres em setembro de 2024.
Com isso, a mudança no discurso da Summit sobre o gasoduto de CO2 expõe uma inflexão relevante no projeto, que passou de uma apresentação centrada no armazenamento de carbono para uma comunicação que também menciona o uso do CO2 na recuperação avançada de petróleo.

