Operações críticas no Brasil, como o monitoramento de usinas hidrelétricas e cirurgias remotas, exigem disponibilidade mínima de 99,98% ao ano, o que equivale a no máximo uma hora e 45 minutos de interrupção em 12 meses. Quem explica esses requisitos é Murillo Carvalho, diretor de projetos e operações da Briskcom, empresa especializada em telecomunicações para o setor elétrico. A constatação foi feita no Podcast Canaltech de segunda-feira, 30 de março de 2026.
De acordo com informações do Canaltech, a Starlink não é considerada um serviço de missão crítica, ao contrário dos satélites geoestacionários tradicionais.
Starlink atende operações críticas?
A Starlink, da SpaceX, não oferece garantia formal de disponibilidade em contrato. Sua meta interna é de 99%, sem compromisso contratual com o cliente. Por isso, a empresa não é indicada para serviços que não podem parar.
Já os satélites geoestacionários são projetados para operar com disponibilidade entre 99,5% e 99,6%. Eles garantem tráfego privado, banda dedicada e endereço IP fixo, características exigidas em contratos corporativos de alto nível.
Quais são as diferenças técnicas entre as tecnologias?
A Starlink opera em órbita baixa, a cerca de 500 km de altitude, o que resulta em latência prática entre 100 e 120 milissegundos e velocidade de download de até 220 MB/s. Em contrapartida, o satélite geoestacionário, posicionado a cerca de 36 mil km da Terra, apresenta latência de 600 a 700 milissegundos.
Embora a latência mais alta impeça aplicações em tempo real, o satélite geoestacionário oferece recursos essenciais para o setor corporativo, como banda garantida e tráfego privado. Além disso, os planos empresariais da Starlink possuem franquias de dados que variam entre 50 GB e 6 TB, enquanto os serviços tradicionais geralmente são ilimitados.
“A Starlink não é um serviço de missão crítica. Isso está escrito no contrato dos revendedores”
Por que a conectividade é vital para o setor elétrico?
Uma falha na comunicação pode impedir o telecomando de usinas e subestações, controladas em tempo real pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), responsável pela coordenação da operação das instalações de geração e transmissão no Sistema Interligado Nacional. Isso aumenta o risco de colapso em cascata no sistema elétrico nacional.
Murillo Carvalho citou um caso real ocorrido no Nordeste, onde um incêndio em subestação levou ao desligamento de linhas que não puderam ser comandadas a distância, agravando o incidente.
O que mudou após o apagão de 2023?
O apagão de agosto de 2023 resultou em nova regulamentação que exige 60 medições de qualidade de energia por segundo em subestações conectadas ao Sistema Interligado Nacional, a rede que integra a maior parte da geração e da transmissão de energia no país.
De acordo com o Plano Estrutural de Redes de Telecomunicações (PERT) 2025 da Anatel, 1.207 municípios brasileiros ainda não possuem backhaul de fibra óptica, concentrados principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Nesses locais, o satélite se consolidou como infraestrutura essencial, especialmente para o agronegócio e áreas rurais.
Quais são as novas constelações de satélites no horizonte?
Nos próximos anos, novas redes devem entrar em operação no Brasil. O Amazon Kuiper iniciou testes comerciais com previsão de alcançar 1 Gbps de download e 400 MB/s de upload. Já a SpaceSail, rede chinesa, é apresentada como concorrente direta da Starlink.
A tecnologia device-to-device, que permitirá a conexão direta de celulares a satélites sem necessidade de torres terrestres, também está em fase de testes.
Qual é a melhor solução segundo o especialista?
A recomendação de Murillo Carvalho é clara: o ideal não é escolher uma tecnologia ou outra, mas combiná-las. A integração entre satélite geoestacionário, Starlink, fibra óptica e rádio enlace, gerenciada por plataformas de SD-WAN, oferece a resiliência necessária com viabilidade econômica.
Essa abordagem híbrida permite que operações críticas mantenham a alta disponibilidade exigida, enquanto se beneficia da velocidade e capilaridade da Starlink em cenários complementares.



