Uma missão do Ministério da Agricultura iniciou nesta segunda-feira, 23 de março de 2026, negociações com autoridades da China para discutir as regras de inspeção fitossanitária da soja brasileira, após a devolução de cerca de 20 navios por presença de ervas daninhas consideradas proibidas no país asiático. As conversas ocorrem em meio a entraves recentes nas exportações, com impacto sobre a emissão de certificados necessários para o embarque das cargas. De acordo com informações do G1 Economia, as tratativas começaram após autoridades chinesas concordarem em flexibilizar parte das exigências sanitárias.
A inspeção fitossanitária é o procedimento de verificação de produtos vegetais, como grãos e frutas, para assegurar que estejam livres de pragas, doenças ou contaminantes. Quando aprovada, ela permite a emissão do certificado fitossanitário, documento exigido no comércio internacional para autorizar a exportação. No caso da soja enviada à China, o tema ganhou relevância depois do retorno de embarques e do relato de dificuldades por exportadores brasileiros. A China é o principal comprador da soja do Brasil, o que dá peso nacional ao impasse no agronegócio e na balança comercial.
O que mudou nas exigências sanitárias da China para a soja brasileira?
Segundo documento da Secretaria de Defesa Agropecuária citado na reportagem, o critério de tolerância zero para a presença dessas impurezas não será mais adotado. Na prática, a China deixou de exigir que a soja brasileira esteja totalmente livre de impurezas, como ervas daninhas, embora a fiscalização continue em vigor.
Ainda não há, porém, um limite numérico definido para essa tolerância. Esse parâmetro deverá ser discutido em novas rodadas de negociação entre os dois países. Até que haja uma definição, a liberação dos carregamentos seguirá baseada em análise de risco.
Por que a devolução dos navios aumentou a pressão por um acordo?
Nos últimos dias, a China devolveu 20 navios com cargas de soja enviadas pelo Brasil por descumprimento de regras sanitárias. Além disso, a Cargill cancelou embarques para o país asiático no dia 12 de março. Segundo a reportagem, isso representa entre 1,2 milhão e 1,5 milhão de toneladas.
O episódio ganhou peso porque a China é o principal destino da soja brasileira e responde por cerca de 80% das exportações do produto. No total, o Brasil deve exportar cerca de 112 milhões de toneladas no ano, de acordo com os dados citados no texto original.
- Cerca de 20 navios foram devolvidos pela China
- A Cargill cancelou embarques no dia 12 de março
- O volume afetado é estimado entre 1,2 milhão e 1,5 milhão de toneladas
- A China responde por cerca de 80% das exportações brasileiras de soja
O que disseram o governo e os especialistas sobre o impasse?
Na semana passada, o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, afirmou que o Brasil não flexibilizou a fiscalização dos embarques destinados à China, em contraste com reportagens publicadas anteriormente na imprensa. Procurado nesta segunda-feira, 23 de março de 2026, o ministério informou que as conversas com os chineses ainda estão em estágio inicial e que não há decisões definitivas, segundo a Reuters.
As negociações devem continuar ao longo da semana com a participação dos secretários de Defesa Agropecuária, Carlos Goulart, e de Comércio e Relações Internacionais, Luis Rua. Em declaração anterior, Fávaro disse que a qualidade da soja brasileira “é inquestionável”, mas avaliou que a preocupação dos chineses é legítima. Na ocasião, também afirmou que proporia à China a criação de um protocolo sanitário específico para o comércio de soja.
“O problema começou no final do ano passado, quando o GACC, órgão responsável pela fiscalização na China, informou ao governo brasileiro que carregamentos estavam chegando com excesso de sementes proibidas e materiais estranhos”, diz Raphael Bulascoschi, analista do mercado de soja da StoneX Brasil.
“Recentemente, a China voltou a cobrar o Ministério da Agricultura de forma mais dura, o que levou o governo a adotar uma ‘postura de tolerância zero’ para evitar tensões diplomáticas e a emitir certificados fitossanitários com mais rigor”, acrescenta.
“Sem esse certificado, as empresas ficam impedidas de entregar a carga na China e de receber o pagamento”, explica.
Na avaliação do analista, o endurecimento da fiscalização ocorreu após alertas feitos pelo GACC, órgão chinês responsável pelo controle sanitário. Com isso, o Ministério da Agricultura passou a realizar inspeções mais frequentes e deixou de emitir certificados para carregamentos fora das exigências. O impasse agora orienta as negociações entre Brasil e China sobre um padrão sanitário para a soja exportada.
