O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu firmemente o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, lançado em 2020 e hoje o método de pagamento mais utilizado no país, nesta quinta-feira, 2 de abril de 2026, durante um evento público na cidade de Salvador, Bahia. De acordo com informações do UOL Notícias, o mandatário respondeu a apontamentos negativos feitos por um relatório anual publicado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês). O chefe do Executivo garantiu que a ferramenta não sofrerá interferências externas, ressaltando a importância do serviço para o cotidiano financeiro da população.
Por que os Estados Unidos criticam o funcionamento do sistema brasileiro?
O documento emitido pelo governo estadunidense expressa o temor de que o Banco Central do Brasil (BC) conceda vantagens exclusivas ao sistema nacional, o que supostamente prejudicaria fornecedores de serviços eletrônicos estrangeiros. O texto diplomático afirma que a plataforma foi criada, é detida, operada e regulada exclusivamente pela autoridade monetária brasileira, limitando a concorrência.
A principal preocupação relatada pelas autoridades de Washington reside na exigência feita pelo Banco Central para que todas as instituições financeiras com mais de 500 mil contas ativas disponibilizem obrigatoriamente a funcionalidade aos seus clientes. O governo norte-americano avalia que essa diretriz cria uma barreira no mercado e desfavorece companhias internacionais de tecnologia financeira.
Durante a cerimônia na capital baiana, o presidente rebateu a pressão internacional enfatizando a soberania nacional sobre a ferramenta:
“O Pix é do Brasil e ninguém vai fazer a gente mudar o Pix, pelo serviço que ele está prestando à sociedade brasileira.”
Como o histórico de investigações afeta o mercado de pagamentos?
O atrito diplomático e comercial envolvendo a tecnologia não é uma novidade na relação bilateral. Ainda sob a administração de Donald Trump, os Estados Unidos abriram uma investigação interna focada em apurar supostas práticas desleais de comércio adotadas pelo Brasil. O foco central daquela apuração era justamente o método de transferência instantânea criado pelo Banco Central.
Naquela época, especulou-se que a motivação principal para a investigação norte-americana seria um possível favorecimento estatal em detrimento do WhatsApp Pay, serviço de pagamentos pertencente à empresa Meta, liderada pelo empresário Mark Zuckerberg. Em resposta oficial, o Ministério das Relações Exteriores argumentou que a arquitetura do sistema garante total neutralidade e foca exclusivamente na segurança financeira da população. O Itamaraty também ressaltou que o próprio Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, testa ferramentas com tecnologia semelhante.
Quais outros temas geram tensão comercial e quais investimentos ocorreram na Bahia?
O Relatório de Estimativa do Comércio Nacional divulgado no final de março de 2026 elenca outras potenciais barreiras para a economia norte-americana. Além do sistema de pagamentos, o documento critica diversas questões ambientais e regulatórias brasileiras. Entre os alvos do texto estrangeiro estão:
- A falta de combate efetivo à mineração ilegal de ouro e à extração criminosa de madeira;
- As atuais leis trabalhistas do país;
- A ausência de legislações específicas sobre plataformas digitais;
- As regras impostas pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD);
- A incidência de taxas de uso de rede e satélites.
Paralelamente às discussões diplomáticas, a agenda presidencial em Salvador marcou a entrega de obras de mobilidade urbana vinculadas ao Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O destaque foi a inspeção das obras de implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), projeto de mobilidade que substituirá o antigo sistema de trens do Subúrbio Ferroviário. O projeto de infraestrutura conta com R$ 1,1 bilhão em recursos oriundos do governo federal, e um trecho do transporte público já opera em fase de testes operacionais.
A solenidade na Bahia também representou a despedida de Rui Costa, ex-governador baiano, do comando do Ministério da Casa Civil. O político deixa a função no Executivo nacional para viabilizar sua candidatura a uma vaga no Senado Federal nas próximas eleições, que ocorrerão em outubro de 2026. Com a desincompatibilização do cargo, a secretária-executiva da pasta, Miriam Belchior, assumirá a liderança do ministério.


