O setor elétrico brasileiro vive, segundo artigo de opinião de João Carlos Mello, um momento de transformação estrutural diante da expansão de fontes renováveis intermitentes, como eólica e solar, e das limitações do modelo de operação ainda centrado na lógica hidrológica do passado. O texto foi publicado pela MegaWhat e sustenta que a operação do sistema precisa ser adaptada para reduzir custos, evitar desperdícios e aumentar a segurança energética no Sistema Interligado Nacional. De acordo com informações da MegaWhat, a revisão do modelo passa por reavaliar o papel dos reservatórios, da formação de preços e da remuneração dos serviços prestados pelas hidrelétricas.
No artigo, Mello afirma que o desenho atual se tornou insuficiente para lidar com um sistema mais complexo, no qual a incerteza não está apenas no regime de chuvas, mas também na variação em tempo real da geração eólica e solar. Para o autor, manter a lógica anterior significa aceitar risco operacional maior e custos mais altos, apesar de o país contar com um parque hidrelétrico capaz de responder com rapidez às oscilações do sistema.
Por que o modelo atual do setor elétrico é considerado insuficiente?
O argumento central do texto é que o modelo de operação foi concebido para uma matriz predominantemente hidrelétrica, com usinas térmicas em papel complementar. Nesse arranjo, os reservatórios funcionavam como uma espécie de reserva estratégica, ajudando a equilibrar oferta e demanda e a enfrentar períodos de escassez hídrica com maior previsibilidade.
Com a ampliação das renováveis intermitentes, porém, o desafio mudou. Segundo o autor, o sistema passou a exigir compensação constante para oscilações de geração, o que expõe a necessidade de valorizar atributos como flexibilidade operacional, resposta rápida e capacidade de estabilização, serviços que as hidrelétricas já oferecem, mas que, no entendimento dele, seguem subvalorizados ou sem remuneração adequada.
Qual papel as hidrelétricas podem desempenhar nesse novo cenário?
João Carlos Mello defende que o Brasil parte de uma posição favorável por dispor de hidrelétricas com elevada capacidade de modulação e eficiência econômica. Na avaliação apresentada no artigo, o problema não está nos ativos existentes, mas na forma como eles são operados e precificados.
O texto propõe uma redefinição do papel dos reservatórios para que eles continuem garantindo segurança em cheias e estiagens, mas também mantenham níveis capazes de assegurar atendimento contínuo da carga e absorver as variações das fontes renováveis. Nesse contexto, o uso múltiplo da água ganha peso maior, já que demandas ligadas ao agronegócio, à navegação, ao saneamento e à irrigação, segundo o autor, precisam ser consideradas de forma estruturada.
- Garantia de segurança energética em períodos críticos
- Manutenção de níveis adequados nos reservatórios
- Absorção das oscilações de geração solar e eólica
- Consideração de usos múltiplos da água na operação
Que mudanças operacionais e econômicas são defendidas no artigo?
Entre as propostas, o artigo cita um paradigma de operação baseado em faixas preferenciais de armazenamento por bacia hidrográfica, ajustadas à sazonalidade e às exigências socioambientais. Nessa lógica, as renováveis atenderiam prioritariamente o balanço energético, enquanto a geração térmica seria usada de forma preventiva e racional para manter os reservatórios em condições consideradas seguras e eficientes.
O autor também defende uma revisão da formação de preços no mercado de curto prazo. De acordo com o texto, o Preço de Liquidação das Diferenças, o PLD, deveria refletir não apenas o custo marginal da energia, mas também o valor da segurança, da flexibilidade e da capacidade disponíveis no sistema. O artigo menciona ainda a criação de mercados de potência e de flexibilidade como forma de reconhecer economicamente serviços já prestados pelas hidrelétricas.
Qual é a avaliação sobre os efeitos dessa transição?
Na avaliação de Mello, a queda da participação das hidrelétricas na matriz ao longo das últimas duas décadas tornou o sistema mais interdependente e complexo, o que exige atualização das regras de operação e de mercado. O autor argumenta que essa evolução não significaria aumento de custos ao consumidor, mas redução de riscos e melhor aproveitamento da infraestrutura já existente.
O artigo conclui que o futuro do setor elétrico brasileiro depende menos da construção de novos ativos e mais da capacidade de operar de forma mais eficiente os recursos já disponíveis. Para o autor, um modelo que preserve os reservatórios, valorize a flexibilidade e integre melhor as fontes renováveis é uma necessidade diante de um ambiente energético cada vez mais dinâmico e incerto.
João Carlos Mello é apresentado no texto como CEO e fundador da Thymos Energia, além de membro da Academia Nacional de Engenharia e diretor-presidente do CIGRE Brasil. A MegaWhat informa que o conteúdo integra seu espaço para artigos de opinião e ressalta que as opiniões publicadas não refletem necessariamente a posição editorial do veículo.