A Samsung Electronics está sinalizando uma mudança estrutural no mercado global de infraestrutura de telecomunicações. Segundo informações publicadas pelo Light Reading e repercutidas em março de 2026, a gigante sul-coreana prevê o declínio progressivo dos equipamentos de 5G construídos especificamente para uma função, conhecidos como purpose-built, em favor de arquiteturas de rede de acesso via rádio virtualizadas, as chamadas vRAN. Essa transição tecnológica está sendo impulsionada pela substituição de silício customizado, antes dominado por empresas como a Marvell, por unidades de processamento central (CPUs) de propósito geral fabricadas pela Intel.
Essa movimentação representa uma quebra de paradigma na forma como as redes de quinta geração são construídas e mantidas. Historicamente, a infraestrutura de rádio dependia de hardware altamente especializado para lidar com o processamento intenso de sinais. No entanto, com o avanço das capacidades de processamento da arquitetura x86 da Intel, a Samsung identificou uma oportunidade de tornar as redes mais flexíveis, escaláveis e baseadas em software. A estratégia permite que as operadoras de telecomunicações utilizem servidores padrão de mercado para gerenciar suas redes, reduzindo a dependência de fornecedores de hardware proprietário.
Para o Brasil, a discussão é relevante porque as operadoras que expandem redes 5G e preparam a evolução da infraestrutura móvel acompanham tendências globais de virtualização e Open RAN. Mudanças nesse mercado podem influenciar escolhas de fornecedores, custos de implantação e a forma de modernização das redes no país.
O que motiva a transição da Samsung para o vRAN?
A principal motivação por trás dessa mudança é a busca por eficiência operacional e flexibilidade de rede. Ao adotar o vRAN, a Samsung permite que as operadoras atualizem suas capacidades de rede por meio de software, em vez de exigir a substituição física de componentes de hardware caros e específicos. Além disso, a arquitetura aberta favorece o ecossistema de Open RAN, no qual diferentes fornecedores podem interoperar no mesmo ambiente de rede. Esse modelo é visto como uma alternativa para diversificar a cadeia global de suprimentos de telecomunicações.
A parceria com a Intel tem sido fundamental nesse processo. Os processadores de propósito geral estão agora atingindo níveis de desempenho que antes eram exclusividade dos chips customizados, os ASICs. Embora empresas como a Marvell ainda tenham forte presença no mercado com silício dedicado, a preferência da Samsung por CPUs da Intel em novos contratos de 5G demonstra que a balança de poder tecnológico está pendendo para a computação baseada em nuvem e para a virtualização de funções de rede.
Qual é o papel da inteligência artificial nas futuras redes de rádio?
A discussão sobre a evolução das redes 5G também envolve a integração da inteligência artificial, conceito denominado AI-RAN. Apesar da entrada agressiva da Nvidia nesse setor, buscando aplicar sua expertise em processamento gráfico (GPU) e IA para otimizar as comunicações sem fio, a Samsung demonstra confiança em sua trajetória atual. A empresa sul-coreana sinaliza que aposta em sua experiência em infraestrutura de rede e na colaboração com parceiros tradicionais de semicondutores.
A integração de IA nas redes de acesso via rádio promete otimizar o consumo de energia, melhorar a alocação de espectro e aumentar a capacidade de transmissão em áreas densamente povoadas. A Samsung projeta que o futuro das telecomunicações será definido pela capacidade de processar dados de forma inteligente na borda da rede (edge computing), onde o software desempenha o papel principal e o hardware atua como uma plataforma genérica e eficiente.
Quais são os principais benefícios das redes baseadas em software?
A adoção desse novo modelo de infraestrutura traz uma série de transformações para o setor de tecnologia. Entre os pontos principais destacados pela evolução para o vRAN, estão:
- Redução de custos operacionais e de capital para as operadoras;
- Maior agilidade na implementação de novos serviços e frequências;
- Menor dependência de ciclos de hardware proprietário;
- Otimização energética por meio de gerenciamento inteligente via software;
- Facilidade de integração com ambientes de nuvem híbrida.
Em suma, a aposta da Samsung no enfraquecimento do hardware 5G dedicado marca o amadurecimento das redes de comunicação como plataformas de computação. A substituição da Marvell pela Intel em novos acordos é um indicativo de que a indústria está priorizando a versatilidade do software sobre a especificidade do hardware, em um movimento acompanhado de perto por operadoras e fornecedores em vários mercados, inclusive o brasileiro.



