O Rio Camarajipe, um dos principais cursos d’água urbanos de Salvador, está em estado avançado de degradação ambiental, transportando esgoto in natura, lixo e até corpos humanos até o mar que banha a capital baiana. A situação, denunciada por pescadores e especialistas, ameaça a vida marinha, compromete a renda das comunidades pesqueiras e expõe falhas crônicas em saneamento básico e gestão urbana. Em uma capital turística como Salvador, o avanço da poluição também afeta a balneabilidade e reforça um problema de saneamento que se repete em grandes cidades brasileiras. O problema se intensificou nas últimas décadas, com o avanço da urbanização desordenada e a ausência de infraestrutura adequada para tratamento de resíduos.
De acordo com informações do Mongabay Brasil, o rio, que já abasteceu a cidade e servia como local de lazer até os anos 1970, em março de 2026 opera como um canal a céu aberto de esgoto. Pescadores da Colônia de Pesca Z1 – Capatazia Jardim dos Namorados, como Luiz Soares, conhecido como “Sinho”, relatam mudanças drásticas na qualidade da água e na biodiversidade local ao longo dos últimos 40 anos.
O que o Rio Camarajipe carrega até o mar?
Segundo Sinho, a foz do rio já recebeu “tudo o que você puder imaginar”: geladeiras, pneus, móveis, roupas íntimas, fraldas, plásticos e, em casos extremos, cadáveres humanos. A poluição também altera a fisiologia de peixes e mariscos — muitos aparecem com coloração anormal, magreza extrema e pele endurecida, inviabilizando seu comércio. Espécies como pititinga, chicharro, siri e tartarugas marinhas têm desaparecido da região. O pescador relatou que, em 2025, viu apenas uma tartaruga marinha, quando antes era comum avistar pelo menos sete.
A contaminação é agravada pelo assoreamento da foz, que impede o escoamento natural da água. Durante períodos secos, o lixo e o esgoto acumulam-se; com as chuvas, tudo é despejado de forma abrupta no oceano. Funcionários da Empresa de Limpeza Urbana de Salvador (Limpurb) recolhem cerca de 50 sacos de lixo diários por rio, mas isso representa menos de 20% do total que chega ao mar.
Quais são as causas e soluções propostas?
Especialistas apontam múltiplos fatores: descarte irregular de esgoto doméstico e industrial, falta de planejamento urbano, expansão desordenada de bairros e negligência do poder público. A bacia do Camarajipe drena 42 bairros de Salvador, numa área de 35,9 km², mas carece de redes de coleta e tratamento eficazes.
Um projeto de revitalização da bacia hidrográfica, coordenado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR), foi aprovado e prevê ações integradas de saneamento, reflorestamento da mata ciliar, educação ambiental e geração de renda. No entanto, os R$ 27 milhões necessários para sua execução ainda aguardam liberação pelo MDR, retidos no setor de fomento enquanto se busca adesão de empresas com débitos junto à União.
Enquanto isso, apenas uma das 38 praias monitoradas pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) em Salvador — a Praia do Cantagalo — está apta ao banho, segundo dados oficiais. O Inema é o órgão ambiental do governo da Bahia responsável, entre outras atribuições, pelo monitoramento da balneabilidade no litoral do estado.

