Novas pesquisas científicas apontam que a Antártida, especialmente a Antártida Ocidental, pode sofrer retração significativa de gelo sob temperaturas semelhantes às atuais, com impactos duradouros sobre o nível do mar. Um núcleo de sedimentos recuperado sob a plataforma de gelo de Ross, somado a estudos recentes de modelagem e observações do recuo atual do gelo, reforça a avaliação de que o aquecimento causado pela ação humana está acelerando esse processo. De acordo com informações da Inside Climate News, os novos achados foram divulgados em reportagem publicada em 23 de março de 2026.
Embora o fenômeno ocorra no extremo sul do planeta, a discussão interessa também ao Brasil: a elevação do nível do mar afeta áreas costeiras em todo o mundo, inclusive o litoral brasileiro, onde estão grandes cidades, portos e infraestrutura estratégica.
A perfuração atravessou cerca de 500 pés de gelo flutuante até o fundo do oceano antártico e permitiu recuperar um registro sedimentar de 23 milhões de anos. Segundo os pesquisadores, as camadas de rocha, silte e fósseis funcionam como um arquivo geológico capaz de mostrar como grandes mantos de gelo e plataformas flutuantes da Antártida Ocidental responderam, no passado, a períodos de aquecimento relativamente modestos.
O que o núcleo de sedimentos revela sobre o passado do gelo antártico?
O material extraído tem mais de 200 metros de profundidade, uma dimensão incomum para esse tipo de amostra coletada sob o gelo. De acordo com a reportagem, esse registro contínuo cobre alternâncias entre eras glaciais e períodos interglaciais mais quentes, ajudando a reconstruir o avanço e o recuo do gelo ao longo de milhões de anos.
Johann Klages, geocientista do Alfred Wegener Institute e co-coordenador do projeto internacional SWAIS2C, afirmou que a expedição busca responder em que momento e sob quais condições a camada de gelo da Antártida Ocidental poderá desaparecer. O projeto investiga a vulnerabilidade da região a um aquecimento de dois graus Celsius acima da linha de base anterior ao uso intensivo de combustíveis fósseis.
A reportagem informa que o mundo pode atingir esse patamar por volta de 2050, segundo alertas recentes citados do cientista climático aposentado da NASA James Hansen. Para viabilizar a missão, uma equipe de 29 integrantes permaneceu acampada por dez semanas, com equipamentos transportados por veículos motorizados ao longo de mais de 600 milhas sobre o gelo.
Como os cientistas identificam avanço, gelo flutuante e mar aberto?
Molly Patterson, professora associada da Binghamton University e co-cientista-chefe da missão SWAIS2C, explicou que as camadas sedimentares mostram como o gelo avançou e recuou. A datação exata ainda dependerá de análises geoquímicas detalhadas, que podem levar anos.
Segundo a descrição da reportagem, quando o gelo está em contato com o fundo marinho, ele revolve e mistura os materiais, deixando detritos mais grossos. Já camadas de lama mais fina, com pedras maiores desprendidas do derretimento de plataformas de gelo, sugerem a presença de gelo flutuante. Quando esses estratos contêm fósseis de organismos dependentes de luz, como plâncton, isso indica água aberta, sem cobertura de gelo.
“Isso é importante”, disse Gasson, “porque nos mostra diretamente que essa parte da camada de gelo, que consideramos especialmente vulnerável a um clima em aquecimento, recuou no passado geológico, deixando para trás mar aberto.”
A avaliação é de Ed Gasson, glaciologista, professor associado da University of Exeter e integrante da equipe do SWAIS2C. Para ele, o núcleo fornece uma evidência direta de que essa parte da camada de gelo, considerada particularmente vulnerável ao aquecimento, já recuou no passado geológico, deixando mar aberto em seu lugar.
Que outros estudos reforçam a preocupação com a Antártida?
A reportagem também menciona dois estudos publicados no último mês, ou seja, em fevereiro de 2026. Um deles mapeou como o gelo antártico escoa por bacias interligadas, sugerindo que o derretimento em uma região pode desestabilizar outras e acelerar a perda de gelo. Outro trabalho, baseado em medições da geleira Thwaites, na Antártida Ocidental, testou a precisão de modelos e concluiu que a taxa atual de perda de gelo é compatível com projeções de derretimento significativo no longo prazo.
Jonathan Donges, pesquisador de sistemas terrestres do Potsdam Institute for Climate Impact Research e coautor do estudo sobre as conexões dinâmicas entre as grandes áreas de gelo do continente, disse que o registro sedimentar ajuda a entender o passado, enquanto as observações da geleira Thwaites mostram o derretimento recente. A questão central, segundo ele, permanece sendo o que ocorrerá nas próximas décadas e séculos.
- O núcleo sedimentar cobre 23 milhões de anos de história climática.
- A amostra foi retirada sob a plataforma de gelo de Ross.
- Os pesquisadores investigam a resposta da Antártida Ocidental a dois graus Celsius de aquecimento.
- Estudos recentes indicam conexões entre diferentes bacias de gelo do continente.
Em conjunto, as diferentes linhas de evidência descritas pela reportagem convergem para uma mesma conclusão: a retração do gelo antártico pode se intensificar em um cenário de aquecimento semelhante ao atual, com potencial de ampliar a elevação do nível do mar e seus efeitos sobre áreas costeiras baixas em várias partes do mundo, incluindo trechos do litoral brasileiro.
