Em 2025, uma investigação da Mongabay revelou a compra em larga escala de carne de tubarão por instituições públicas, servida em escolas, creches e hospitais. De acordo com informações do Mongabay Brasil, a série de reportagens impactou o debate público, motivando um pedido de audiência pública no Congresso Nacional, uma citação no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), uma ação civil pública e a suspensão do uso da carne em escolas públicas estaduais no Rio de Janeiro.
Philip Jacobson, da Mongabay, e Kuang Keng Kuek Ser, do Pulitzer Center, detalham a construção do banco de dados de licitações de carne de tubarão e a metodologia utilizada, visando auxiliar outros jornalistas.
Em julho de 2025, a Mongabay publicou uma investigação que expôs as compras públicas em grande escala de carne de tubarão para alimentar crianças, pacientes e detentos. O Brasil, maior consumidor e importador mundial da carne, gerou preocupações ambientais devido à sobrepesca de tubarões, cujas populações em mar aberto diminuíram cerca de 71% nos últimos 50 anos. A investigação também alertou para os riscos à saúde, devido aos altos níveis de metais pesados na carne de tubarão, perigosos para crianças, gestantes e lactantes.
Como a investigação impactou o cenário nacional?
A série de reportagens gerou um amplo debate público, resultando em um pedido de audiência pública no Congresso Nacional, uma citação no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e uma ação civil pública. Além disso, contribuiu para a suspensão do uso da carne de tubarão em escolas públicas estaduais no Rio de Janeiro.
Durante a pesquisa, foram meses vasculhando dezenas de portais de transparência, onde governos estaduais e municipais publicam licitações. O trabalho envolveu reunir dados catalogados com termos de busca inconsistentes para montar o quebra-cabeça das aquisições. O objetivo é inspirar e facilitar o trabalho de outros jornalistas e pesquisadores interessados na investigação.
Foram rastreadas 1.012 licitações de carne de tubarão, emitidas desde 2004, e identificadas 5.900 instituições públicas, incluindo creches, abrigos, maternidades, bases militares, casas de repouso e residências de governadores, que potencialmente receberam a carne através dessas aquisições. As repórteres investigativas Karla Mendes e Fernanda Wenzel também desempenharam papéis fundamentais na investigação, apurando em campo as pistas reveladas pelo banco de dados.
Qual foi a motivação inicial para a investigação?
A investigação começou com o conhecimento de que algumas instituições governamentais compravam carne de tubarão para crianças em idade escolar. Em 2021, a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo cancelou a compra de 650 toneladas métricas após críticas da ONG Sea Shepherd Brasil. Naquele ano, a cidade de Santos também anunciou a proibição da carne nas merendas escolares, evitando o consumo de quase meia tonelada métrica pelas crianças.
Especialistas indicavam que as aquisições ocorriam em outros locais, mas não havia relatórios ou estudos abrangentes sobre o tema. As perguntas persistiam: quão disseminadas eram as compras públicas de carne de tubarão no Brasil? Quais agências compravam? Para quem serviam? Quais espécies eram utilizadas? Os funcionários responsáveis pelas compras sabiam que “cação” era sinônimo de tubarão?
Conforme a investigação avançava, os portais de transparência se mostraram o melhor caminho. No entanto, analisar os portais dos 5.569 municípios, dos 26 estados e do Distrito Federal seria inviável. A análise foi restringida a algumas localidades, com o objetivo de comprovar a hipótese de que as compras são generalizadas.
Como foi o processo de pesquisa nos portais de transparência?
Após localizar o portal de transparência, foi necessário descobrir como navegar na ferramenta de busca e se era possível usá-la para encontrar licitações de carne de tubarão. A tarefa apresentou desafios devido à variedade de designs e funcionalidades limitadas de alguns portais. Quando possível, foram desenvolvidos raspadores de dados (web scrapers) personalizados, utilizando a linguagem de programação Python. No entanto, identificar as licitações de carne de tubarão quase nunca se resumia a simplesmente pesquisar “cação” por algumas razões:
- Os portais normalmente fornecem um número limitado de campos para pesquisa, como órgão contratante, ID da licitação e ano de emissão.
- A lista de itens destinados à compra raramente é pesquisável.
- As buscas de palavras-chave foram focadas no campo “objeto”, que resume o propósito geral da licitação (por exemplo, “compra de peixe para merenda escolar na cidade X”).