Neste início de abril de 2026, o Mount Kenya Wildlife Conservancy (MKWC) prepara-se para receber quatro machos de bongos-da-montanha oriundos de zoológicos europeus, em uma iniciativa inédita e ambiciosa para impulsionar a população de um dos antílopes mais ameaçados de todo o continente africano. A operação de transferência internacional é liderada por especialistas do Chester Zoo, localizado na Inglaterra, em estrita colaboração com o Kenya Wildlife Service (KWS) e a Associação Europeia de Zoológicos e Aquários.
De acordo com informações do Mongabay Global, os especialistas dedicaram mais de 11 anos à coordenação rigorosa de um programa de reprodução em diversos zoológicos de conservação na Europa. Os quatro machos selecionados para a viagem foram escolhidos com base em critérios estritos de idade, saúde e genética favorável, marcando a primeira vez na história que a espécie será transferida de zoológicos europeus diretamente para o Quênia como parte de um esforço estruturado de reintrodução na natureza.
Por que os bongos-da-montanha estão criticamente ameaçados?
Especialistas quenianos atribuem o drástico declínio da espécie a uma combinação letal de perda de habitat florestal e avanço da caça furtiva. A avaliação mais recente conduzida pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), realizada no ano de 2016, concluiu que o antílope, que habita florestas densas, estava criticamente ameaçado de extinção. Naquela época, os registros apontavam que restavam apenas entre 70 e 80 indivíduos adultos vivendo na natureza, todos eles concentrados exclusivamente no território do Quênia.
No período entre 2015 e 2025, os bongos-da-montanha (Tragelaphus eurycerus ssp. isaaci) chegaram a experimentar um breve aumento em sua população selvagem. O relatório do censo nacional da vida selvagem do Quênia afirma que, em 2021, existiam aproximadamente 150 bongos-da-montanha em estado selvagem. No entanto, os números sofreram uma queda abrupta e, até o ano de 2025, os dados oficiais contabilizaram a presença de apenas 66 animais vivendo livremente em seu habitat natural.
Como os programas de cativeiro ajudam a reverter a extinção?
Enquanto as populações selvagens enfrentam um colapso preocupante, o número de bongos criados e protegidos em cativeiro encontra-se em franca expansão. Segundo o mesmo censo oficial da vida selvagem, o contingente de animais cativos saltou de 54 indivíduos no ano de 2021 para 93 exemplares em 2025. Somado a isso, outro esforço internacional de repatriação já havia garantido o retorno de 17 indivíduos provenientes dos Estados Unidos para integrar as frentes de preservação quenianas.
Esse modelo de reprodução internacional seguida de repatriação é bastante semelhante a estratégias de sucesso conhecidas pelo público brasileiro, como as que salvaram o mico-leão-dourado e a ararinha-azul, espécies nativas do Brasil que também dependeram fortemente do intercâmbio com zoológicos estrangeiros para evitar a extinção definitiva.
Segundo os representantes do Chester Zoo, assim que os quatro novos machos europeus passarem por exames de saúde rigorosos e cumprirem os protocolos de quarentena exigidos, eles poderão ser levados de avião para o Quênia. No local de destino, os animais serão monitorados de perto pelos tratadores antes de serem oficialmente introduzidos no programa de reprodução ativa.
“Esses machos são um componente crítico do nosso programa de reintrodução na natureza”, afirmou Robert Aruho, chefe de conservação do MKWC. Como o local já possui mais de 100 animais em seu programa de reprodução em cativeiro, o foco atual visa o crescimento sustentado, com a meta nacional de longo prazo de estabelecer pelo menos 750 indivíduos até o ano de 2050.
Qual é o papel da tecnologia e das parcerias na conservação animal?
A tecnologia também atua como um pilar de suporte fundamental para a conservação contemporânea da fauna africana. O Chester Zoo informou que trabalhou em conjunto com parceiros estratégicos, incluindo a Liverpool John Moores University, para desenvolver o primeiro sistema de detecção do mundo movido a inteligência artificial (IA) voltado exclusivamente para os bongos-da-montanha. O aparato consiste em câmeras avançadas que fornecem dados em tempo real sobre o comportamento, a movimentação diária e a saúde dos animais, tudo isso sem causar qualquer tipo de perturbação no ambiente natural.
“Colaborações como essa são absolutamente essenciais se quisermos evitar que essa espécie magnífica desapareça completamente”, declarou Nick Davis, gerente geral de mamíferos do Chester Zoo e coordenador do programa de reprodução europeu, acrescentando que a iniciativa demonstra como os zoológicos modernos desempenham uma função vital em trazer espécies de volta do limite da extinção.
Para Stuart Nixon, gerente sênior de programas de campo regionais para a África do Chester Zoo, há fatores essenciais que irão mudar a maré de sobrevivência para a espécie nas próximas décadas:
- Avanços recentes em tecnologia aplicada à conservação da vida selvagem;
- Programas internacionais consistentes e bem-sucedidos de reprodução em cativeiro;
- Amplos esforços globais focados na reintrodução dos animais na natureza.