O Nordeste ampliou sua participação no total de votos válidos das eleições presidenciais brasileiras entre 2002 e 2022, movimento associado à queda da abstenção e à redução de votos brancos e nulos na região. O levantamento, publicado no domingo, 12 de abril de 2026, mostra que a fatia nordestina cresceu 2,5 pontos percentuais nos segundos turnos, enquanto Sudeste e Sul perderam espaço. De acordo com informações do Poder360, especialistas relacionam esse avanço a mudanças no perfil educacional do eleitorado e à maior mobilização política na região.
Segundo os dados citados pela reportagem, Norte e Centro-Oeste também registraram aumento na participação sobre o total de votos válidos, mas em intensidade menor. No mesmo período, o Sudeste teve retração de 3,8 pontos percentuais e o Sul, de 1,1 ponto percentual. O indicador considera a divisão dos votos válidos de cada região pelo total de votos válidos do país em cada pleito presidencial.
Como o Nordeste ganhou participação nas eleições?
A reportagem aponta que o crescimento da participação nordestina foi superior ao avanço do próprio eleitorado da região. Entre 2000 e 2022, a presença do Nordeste no total de eleitores do Brasil subiu de 26,9% para 27,1%, alta de apenas 0,2 ponto percentual. Ainda assim, o peso regional nos votos válidos cresceu muito mais, o que sugere aumento da presença efetiva nas urnas e menor descarte de votos.
Os números mostram uma mudança importante no comparecimento. Em 2002, a abstenção no segundo turno presidencial no Nordeste era de 25,7%. Naquele ano, 69,2% dos eleitores da região votaram em algum candidato, e 5,1% optaram por branco ou nulo. Em 2022, a abstenção caiu para 19,3%, ficando abaixo das taxas registradas no Centro-Oeste, no Sudeste e no Norte, e acima apenas da observada no Sul.
No Sudeste, o movimento foi inverso. A taxa de votos destinados a algum candidato caiu de 78,0% em 2002 para 74,7% em 2022. Já a abstenção subiu de 17,4% para um patamar 3,8 pontos percentuais maior ao longo das duas décadas.
O que explica a queda da abstenção no Nordeste?
De acordo com a reportagem, o pesquisador e vice-coordenador do Observatório da Política no Nordeste, Marcos Pontes, atribui parte desse processo ao avanço da escolaridade regional. A avaliação é que a redução do analfabetismo, a ampliação das universidades e o crescimento da escolarização básica ajudaram a formar um eleitorado mais apto a participar do processo eleitoral.
“Seja porque o eleitor não consegue entender o debate político, seja porque ele não consegue operar o momento do voto e apresentar ali com nitidez a sua preferência diante da urna. A urna é um código, numérico e linguístico, que o eleitor precisa dominar”, disse.
Os dados reproduzidos pela reportagem indicam que, em 2002, 14% dos eleitores nordestinos eram analfabetos e 75,2% não haviam concluído o ensino fundamental. Em 2022, esse quadro havia mudado de forma relevante:
- o analfabetismo caiu para 7,3%;
- a parcela com fundamental incompleto recuou para 42,8%;
- a educação básica completa passou a alcançar 36,5% dos eleitores da região.
A publicação também destaca que, entre os 100 municípios brasileiros que mais reduziram as taxas de analfabetismo de 2002 a 2022, todos tiveram queda na abstenção superior a 18 pontos percentuais. Desses municípios, 67 estão no Nordeste. Um dos exemplos citados é Jucuruçu, no sul da Bahia, onde a abstenção caiu de 54,1% em 2002 para 25,8% na última eleição presidencial.
Qual é o peso das políticas públicas e o que esperar de 2026?
Além da educação, Marcos Pontes afirmou ao jornal que a percepção sobre políticas públicas federais também pode ter contribuído para aumentar a mobilização eleitoral no Nordeste. Segundo ele, a região passou a ocupar lugar mais central no debate eleitoral, o que reforçaria entre os eleitores a percepção de relevância política.
“O Nordeste se tornou um tema muito importante das eleições, e isso faz com que o próprio eleitor nordestino se perceba com maior importância e se perceba chamado a participar desse processo”, disse.
Na comparação com o Sudeste, a reportagem informa que a outra região concentrou aumento de abstenção e de votos brancos ou nulos ao longo do século 21, com leve baixa em 2022. Pontes relaciona esse quadro à desindustrialização, ao aumento da violência urbana e à intensificação da competição dentro da classe média.
“A região Sudeste teve uma vida melhor antes do Nordeste. A região tem mais capacidade instalada, mais universidades, mais renda, mais tudo. E ela é o centro do processo de desindustrialização do Brasil”, afirmou.
Para 2026, porém, o cenário ainda é tratado como indefinido. A reportagem registra que os dados preliminares de fevereiro indicavam crescimento de 0,3 ponto percentual da participação do Nordeste no eleitorado nacional em relação a 2022, enquanto o Sudeste recuava 0,7 ponto percentual. Ainda assim, a própria publicação ressalta que mudanças no tamanho do eleitorado não se convertem automaticamente em maior presença efetiva no dia da votação.
“Claro que o Nordeste expressa, desde 2006, uma inclinação visível pela centro-esquerda brasileira. Mas isso não significa que a direita não tem a presença. Quando a gente olha as eleições municipais, por exemplo, a direita teve uma presença significativa. A região segue muito disputada”, afirmou.