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Projetos de energia geotérmica na Indonésia são suspensos por indígenas

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Membros de uma comunidade indígena protestam em frente a uma estrutura industrial de energia geotérmica na Indonésia.
Foto: Gabriel ^(oo)^ / flickr (by)

Uma iniciativa ambiciosa que pretendia transformar a Ilha de Flores, localizada no leste da Indonésia, em um polo global de transição para fontes renováveis encontra-se paralisada. Quase uma década após o anúncio da criação de uma “ilha geotérmica” em 2017, os principais projetos encontram-se suspensos neste ano de 2026 devido à forte resistência da comunidade indígena local, que denuncia riscos à segurança, à saúde e a violação de direitos territoriais históricos.

De acordo com informações do Mongabay Global, o plano começou com a identificação de 21 locais potenciais para exploração de energia geotérmica na região. A empreitada contava com o apoio financeiro e estratégico de credores internacionais de peso, como o Banco Mundial e o Banco de Desenvolvimento da Alemanha (KfW), sendo apresentada como uma vitrine mundial para a adoção de energia limpa em países em desenvolvimento.

Por que as comunidades indígenas rejeitam as usinas geotérmicas?

A suspensão das obras ocorreu após cerca de oito anos de oposição contínua por parte do povo indígena Manggarai. Um estudo recente revelou que a insatisfação não está relacionada à rejeição da transição energética em si, mas sim à forma considerada injusta como a implementação foi conduzida pelas autoridades e empresas envolvidas no processo exploratório.

Os moradores das comunidades de Wae Sano e Poco Leok relataram uma série de ameaças diretas ligadas à perfuração do solo para a captação de calor contido no subsolo. Entre as principais preocupações apresentadas pelas lideranças locais às entidades internacionais, destacam-se:

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  • Riscos à saúde pública decorrentes das constantes emissões de gases geotérmicos.
  • Ameaças diretas à integridade das terras agrícolas férteis da região.
  • Perda severa de meios de subsistência e da capacidade de geração de renda familiar.
  • Falta de transparência e processos vagos de tomada de decisão por parte dos governos.

“No caso de Flores, assim como em muitos outros lugares, as pessoas não estão rejeitando a transição energética. O que elas rejeitam é quando a justiça está ausente e seu espaço de convivência é perturbado.”

A explicação técnica do cenário foi elaborada por Cypri Jehan Paju Dale, autor principal do estudo sobre o caso e antropólogo social associado à Universidade de Kyoto, no Japão, e à Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos.

Qual foi o impacto da lei consuetudinária na paralisação?

O conflito territorial escalou porque os moradores argumentam firmemente que as usinas ameaçam o seu “ruang hidup”, um conceito indonésio profundo que se traduz livremente como espaço de convivência. Essa definição transcende a simples propriedade legal e documental da terra, englobando os vínculos econômicos, culturais e espirituais com túmulos ancestrais, locais de rituais sagrados e áreas de cultivo histórico familiar.

A resistência ganhou uma força institucional considerável quando as comunidades articularam essas reivindicações sob a perspectiva da lei consuetudinária, conhecida localmente como “adat”. Ao demonstrar de forma coesa que o seu território vital é completamente indissociável da sua própria identidade cultural, os grupos indígenas forçaram os investidores internacionais a revisar detalhadamente os protocolos de aprovação ambiental e de impacto social.

Como os financiadores internacionais reagiram aos protestos no território?

A crescente pressão popular e a mobilização jurídica resultaram em perdas de financiamento expressivas para as iniciativas do governo da Indonésia. Em dezembro de 2023, o Banco Mundial retirou formalmente o seu aporte financeiro para as operações de perfuração exploratória na área de Wae Sano. A instituição justificou a sua decisão apontando falhas graves no processo de obtenção do consentimento livre, prévio e informado das comunidades afetadas pela exploração.

O movimento de retirada em cadeia continuou nos meses seguintes, impactando outros canteiros de operações na região. Em novembro de 2024, o KfW seguiu a mesma diretriz institucional de proteção social e recomendou oficialmente que o projeto na área vizinha de Poco Leok também fosse imediatamente suspensos pelos mesmos motivos de desrespeito aos protocolos internacionais de consulta pública e de consentimento prévio dos moradores.

Quais são as denúncias sobre violência e o chamado extrativismo verde?

Apesar das expressivas vitórias burocráticas alcançadas junto às agências de crédito internacionais, a luta prolongada impôs custos altos aos moradores nativos. Habitantes das vilas reportaram dezenas de confrontos tensos com as forças de segurança do Estado indonésio ao longo do tempo. Em outubro de 2024, quatro moradores foram agredidos e detidos enquanto protestavam pacificamente contra a construção de estradas de acesso às obras. Um jornalista independente que cobria a manifestação no local também foi agredido e preso pelas autoridades policiais durante a repressão estadual.

Pesquisadores e analistas apontam que toda essa situação de tensão nas vilas reflete um padrão histórico e recorrente do chamado “extrativismo verde”. Esse cenário encontra paralelos diretos no Brasil, onde a expansão de usinas hidrelétricas na Amazônia e de parques eólicos no Nordeste frequentemente gera conflitos por sobreposição a terras indígenas e comunidades tradicionais. Nesse modelo operacional severo, os riscos ambientais e as perdas sociais são amplamente externalizados para a população mais vulnerável, enquanto os lucros gerados pela operação industrial permanecem privatizados pelas corporações de energia.

Cypri Jehan Paju Dale observa criticamente em seu estudo que o atual modelo de desenvolvimento estatal costuma criar verdadeiras “zonas de sacrifício” habitacionais e sociais para subsidiar e alavancar grandes interesses nacionais ou gigantescos projetos de turismo intensivo.

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