
O projeto MoonRF anunciou no início de abril de 2026 o desenvolvimento do QuadRF, um sistema de rádio definido por software (SDR) de código aberto projetado para permitir comunicações complexas, incluindo a técnica de refletir sinais na superfície lunar. O hardware é baseado em uma arquitetura modular que utiliza uma matriz de 240 antenas para enviar e receber dados, permitindo a exploração de radiofrequência em níveis profissionais por um custo reduzido. O sistema opera na chamada banda C, cobrindo frequências entre 4,9 e 6,0 GHz, o que o torna ideal para diversas aplicações de telecomunicações modernas.
De acordo com informações do site MoonRF, o núcleo do sistema é o módulo QuadRF, um “tile” (bloco) de rádio que contém quatro antenas integradas. Esses módulos foram projetados para serem empilhados, funcionando como blocos de construção para matrizes de fase (phased arrays) significativamente maiores. A tecnologia permite o controle preciso da direção do sinal sem a necessidade de movimentar fisicamente as antenas, utilizando interferência construtiva e destrutiva para moldar o feixe de rádio.
Quais são as principais especificações técnicas do hardware QuadRF?
Cada unidade do QuadRF é equipada com um FPGA Lattice ECP5, que processa os sinais com uma latência inferior a um milissegundo. O dispositivo oferece uma largura de banda de 40 MHz por antena e opera em modo full duplex, permitindo transmissão e recepção simultâneas. Em termos de potência, o hardware entrega 1 W por antena, o que, em uma matriz completa de 240 unidades, resulta em uma capacidade de transmissão considerável para experimentos de longo alcance.
A precisão do sistema é garantida por um oscilador MEMS TCXO com jitter de aproximadamente 1,4 picossegundos. Para a recepção, o dispositivo apresenta um baixo fator de ruído (Noise Figure) de cerca de 1,2 dB, essencial para captar sinais fracos que retornam do espaço. A polarização utilizada é a circular à direita (RHCP) para transmissão e circular à esquerda (LHCP) para recepção, um padrão comum em comunicações espaciais para minimizar perdas por despolarização.
Como funciona o conceito de matriz de fase massiva?
O diferencial do projeto é a escalabilidade. Enquanto um rádio convencional utiliza uma única antena para irradiar sinal em todas as direções, a matriz de fase do MoonRF combina as fases de múltiplos radiadores para concentrar a energia em um feixe estreito e potente. Ao utilizar 240 antenas de forma coordenada, o sistema consegue ganho suficiente para realizar o chamado EME (Earth-Moon-Earth), onde o sinal viaja até a Lua, reflete em sua superfície rochosa e retorna para a Terra, onde é captado novamente. No Brasil, radioamadores ligados a entidades como a Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissão (LABRE) utilizam a técnica EME historicamente para contatos intercontinentais de altíssima complexidade.
Quais são as aplicações práticas dessa tecnologia de código aberto?
Embora a reflexão lunar seja o objetivo mais ambicioso, o QuadRF possui aplicações terrestres imediatas e versáteis. O projeto disponibiliza o código de forma aberta, permitindo que desenvolvedores e engenheiros adaptem o hardware para necessidades específicas de infraestrutura e pesquisa. Entre as principais aplicações listadas pelos desenvolvedores estão:
- Rádios definidos por software de propósito geral com suporte para 4×4 MIMO;
- Sistemas de busca de direção (Direction of Arrival – DOA) e exploração de espectro;
- Criação de roteadores Wi-Fi de código aberto de alta performance;
- Desenvolvimento de estações rádio-base para redes móveis 4G e 5G;
- Links de comunicação em alta definição para drones e sistemas robóticos.
Atualmente, o custo estimado para cada módulo individual varia entre R$ 270 e R$ 550, dependendo da configuração final e do lote de produção. Os desenvolvedores afirmam que o hardware estará disponível para o público em breve, prometendo transformar o acesso a tecnologias que, até pouco tempo, eram restritas a agências espaciais ou grandes corporações de defesa. O projeto MoonRF mantém um canal de atualizações para interessados em adquirir as primeiras unidades de teste.
O QuadRF estará disponível em breve!
A iniciativa reforça o movimento de democratização do hardware, onde entusiastas podem construir suas próprias estações de monitoramento e comunicação via satélite em casa. Com o avanço de plataformas como o Lattice ECP5, o processamento de sinais complexos tornou-se mais acessível. Isso permite que o Brasil amplie suas pesquisas em telecomunicações sem a dependência exclusiva de equipamentos proprietários caros, beneficiando projetos desenvolvidos por universidades federais e institutos como o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).


