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Programa bilionário de Biden resiste sob Trump e mantém rumo da transição energética

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Joe Biden discursa em um pódio com símbolos oficiais dos EUA, tendo ao fundo bandeiras americanas e painéis solares.
Foto: USDAgov / flickr (by)

O programa de empréstimos do Departamento de Energia dos Estados Unidos, reforçado no governo Joe Biden com mais de US$ 400 bilhões para apoiar projetos de energia limpa, continua em operação mesmo após a ofensiva política e administrativa promovida pela gestão de Donald Trump. Segundo a reportagem, a estrutura segue sustentando iniciativas como linhas de transmissão, usinas nucleares e fábricas ligadas à transição energética, apesar de declarações do secretário de Energia, Chris Wright, sobre uma suposta revisão ampla da carteira. De acordo com informações do Grist, fontes que acompanharam o programa afirmam que as mudanças foram menores do que o governo Trump anunciou.

A notícia tem impacto além da política interna dos Estados Unidos porque o financiamento americano à transição energética influencia cadeias globais de mineração, baterias, equipamentos elétricos e energia, setores nos quais o Brasil participa como exportador de minerais, produtor industrial e destino de investimentos.

A reportagem relata que Wright disse ter revisado ou alterado cerca de 80% de uma carteira de empréstimos de US$ 100 bilhões aprovada no governo Biden. Ele também acusou a administração anterior de acelerar liberações nos últimos meses de 2024, após a eleição presidencial nos Estados Unidos, e afirmou ter retirado projetos que, segundo sua avaliação, não serviriam ao melhor interesse dos americanos. Ainda assim, ex-integrantes do governo federal e pessoas que trabalharam com o escritório de empréstimos disseram ao Grist que boa parte da estrutura herdada de Biden foi mantida.

Como funciona o escritório de empréstimos do Departamento de Energia?

O Loan Programs Office recebe propostas de concessionárias e empresas interessadas em construir usinas, linhas de transmissão ou fábricas de baterias. Se a proposta é aprovada, o empreendimento pode tomar recursos do Tesouro dos Estados Unidos a juros mais baixos do que os praticados por bancos privados, com garantia do Departamento de Energia. Caso o projeto fracasse, o departamento cobre o Tesouro com recursos autorizados pelo Congresso. Se der certo, o governo amplia sua capacidade de financiar novos projetos.

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O programa foi criado em 2005, durante o governo de George W. Bush, para estimular o desenvolvimento de energia limpa. Sob Barack Obama, o escritório ganhou notoriedade e também controvérsia após emprestar cerca de US$ 500 milhões à fabricante de células solares Solyndra, que acabou entrando em colapso. O episódio foi usado por republicanos como exemplo de fracasso, embora o mesmo mecanismo também tenha financiado casos bem-sucedidos, como a Tesla, e tenha registrado taxa geral de perdas de 3%, segundo a reportagem.

Por que o programa ganhou tanta importância no governo Biden?

Em 2022, a Inflation Reduction Act ampliou quase dez vezes o alcance do escritório ao lhe conceder cerca de US$ 400 bilhões em autoridade de garantia para investir em startups de baterias, novas renováveis e modernização da rede elétrica. A lei se tornou o principal marco da política industrial e climática do governo Biden, com reflexos sobre a competição internacional por investimentos em energia e manufatura limpa.

A intenção era cobrir uma lacuna deixada pelos subsídios e créditos tributários, viabilizando projetos considerados arriscados demais pelo setor privado.

Mesmo com essa expansão, a implementação foi lenta. Ex-autoridades ouvidas pelo Grist afirmaram que o escritório operou com cautela excessiva e forte burocracia, em parte por causa da repercussão negativa do caso Solyndra. Isso prolongou negociações e análises de risco, e muitos acordos só foram concluídos depois da vitória eleitoral de Trump em 2024. Na avaliação de observadores citados na reportagem, os empréstimos que Wright classificou como apressados passaram, na verdade, por diligência rigorosa.

O que mudou com a chegada de Chris Wright?

Segundo a reportagem, a chegada de Wright a Washington dificultou ainda mais o andamento do programa. O escritório teve três líderes diferentes nos primeiros seis meses do governo Trump, perdeu mais da metade da equipe em meio aos cortes de força de trabalho associados aos esforços de Elon Musk e praticamente interrompeu a comunicação com tomadores de empréstimo.

“O avanço de qualquer pedido por qualquer etapa exigiria aprovação de indicados políticos como parte de uma nova consolidação dos direitos de decisão, e as aprovações não eram concedidas”, escreveu Jen Downing, que atuou como conselheira sênior do Loan Programs Office no governo Biden e permaneceu nos primeiros meses do governo Trump, em carta ao Congresso no verão passado no Hemisfério Norte, segundo a reportagem.

Jen Downing, ex-conselheira sênior do escritório durante o governo Biden e por alguns meses no início da gestão Trump, afirmou em carta ao Congresso, citada pela reportagem, que qualquer avanço em pedidos passou a depender de nomeados políticos, e as aprovações não eram concedidas. Ela também disse aos parlamentares que a nova liderança passou meses examinando quase todos os empréstimos aprovados na administração anterior.

Quais projetos foram mantidos e quais saíram?

O texto informa que Wright cancelou alguns empréstimos relevantes, entre eles o Grain Belt Express, linha de transmissão de energia eólica no Missouri contestada pelo senador republicano Josh Hawley, do Missouri. Mas ex-funcionários do Departamento de Energia disseram que parte relevante dos US$ 30 bilhões em empréstimos que Wright afirmou ter encerrado foi, na realidade, abandonada pelos próprios interessados, algo descrito como comum em projetos complexos e arriscados.

  • Empréstimo de US$ 1,45 bilhão à fabricante de painéis solares QCells, na Geórgia, seguiu sem interrupção.
  • O projeto de mina em Thacker Pass, em Nevada, destinado à produção de lítio para baterias de veículos elétricos, foi mantido e recebeu participação acionária do departamento.
  • O escritório também avançou em um empréstimo de US$ 26,5 bilhões para a Southern Company.

“O número é falso”, disse Jigar Shah, que comandou o Loan Programs Office no governo Biden. “Acho que, em certa medida, isso serve para convencer Trump de que eles estão encerrando os empréstimos.”

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