O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou tomar o controle da ilha de Kharg, pequena porção de terra iraniana que concentra 90% das exportações de petróleo do Irã. A declaração ocorreu em entrevista ao Financial Times no domingo, 29 de março de 2026, no contexto de um conflito em curso que já registra ataques americanos contra alvos militares na ilha.
De acordo com informações do G1, Trump afirmou que está considerando invadir a ilha para pressionar o Irã, mas reconheceu que a operação exigiria presença americana por tempo prolongado. Para o Brasil, uma escalada na região é relevante porque o Golfo Pérsico concentra parte importante da oferta global de petróleo, e oscilações no preço internacional costumam pressionar os combustíveis e a inflação no país.
O que torna a ilha de Kharg tão importante para o Irã?
Localizada a cerca de 24 quilômetros da costa iraniana, no norte do Golfo Pérsico, a ilha de Kharg mede aproximadamente oito quilômetros de comprimento. Apesar do pequeno tamanho, o local funciona como o principal terminal de exportação de petróleo do país.
Noventa por cento do petróleo bruto exportado pelo Irã passa pela ilha, que processa diariamente 1,3 milhão de barris. O terminal possui capacidade de armazenamento para 18 milhões de barris, equivalente a 10 ou 12 dias de exportações normais.
Como funciona o terminal petrolífero da ilha?
O petróleo chega a Kharg por uma rede de oleodutos submarinos conectados aos campos offshore de Aboozar, Forouzan e Dorood. Petroleiros de grande porte, com capacidade para até 85 milhões de galões, atracam nos píeres da ilha graças à profundidade das águas próximas, diferente da costa continental rasa.
Após o carregamento, os navios seguem pelo Golfo Pérsico e atravessam o estreito de Ormuz, passagem marítima estratégica entre o Golfo Pérsico e o oceano Índico, com destino principal à China.
O que Trump e os EUA disseram sobre o ataque de 13 de março?
Em 13 de março, Trump declarou que as forças americanas “obliteraram completamente todos os alvos militares” na ilha de Kharg, mas optaram por não atacar a infraestrutura petrolífera “por razões de decência”. O Comando Central dos Estados Unidos confirmou ter atingido mais de 90 alvos militares, preservando as instalações de petróleo.
A mídia estatal iraniana informou que as instalações petrolíferas não sofreram danos. A agência Fars relatou que os ataques miraram defesas aéreas, base naval, torre de controle do aeroporto e um hangar de helicópteros.
Quais seriam as consequências de um ataque à infraestrutura petrolífera?
Analistas avaliam que destruir a infraestrutura da ilha representaria grave escalada no conflito. A medida afetaria diretamente a receita da Guarda Revolucionária Islâmica e poderia provocar retaliações iranianas contra outras infraestruturas energéticas na região.
Especialistas alertam ainda para o impacto nos preços globais do petróleo. Antes do ataque, o barril era negociado em torno de US$ 120. Um ataque a Kharg poderia elevar o valor para cerca de US$ 150, segundo estimativa do analista Neil Quilliam, do Chatham House. No Brasil, movimentos desse tipo no mercado internacional tendem a ser acompanhados de perto por seus efeitos potenciais sobre diesel, gasolina, frete e custos logísticos.
A ilha possui importância histórica que remonta ao Império Persa, há mais de dois mil anos. No século 20, durante o reinado do xá Mohammad Reza Pahlavi, foi transformada em centro de armazenamento e distribuição de hidrocarbonetos. Parte de sua infraestrutura original pertenceu a empresas americanas até a Revolução Islâmica de 1979.
A possível ocupação ou bloqueio da ilha é vista como forma de pressionar o Irã em um ponto central de seu escoamento de petróleo. Especialistas consideram que qualquer dano permanente à ilha teria consequências energéticas graves para o Irã e para o mercado global.

