Pesquisadores da Universidade de Harvard revelaram que polvos machos utilizam um braço reprodutivo especializado, chamado hectocótilo, como um órgão sensorial capaz de identificar parceiras mesmo sem contato visual. A descoberta inédita demonstra que o membro funciona de forma semelhante a uma língua, rastreando o hormônio feminino progesterona no ambiente para possibilitar a reprodução de forma remota e segura.
De acordo com informações publicadas nesta quinta-feira (2) pelo Guardian Environment, o estudo, divulgado na revista científica Science, resolve um antigo mistério da biologia marinha. Até então, os cientistas não compreendiam exatamente como os machos da espécie conseguiam localizar o ponto exato para depositar os espermatozoides no sistema reprodutivo das fêmeas de maneira tão precisa.
Como o braço especializado funciona no acasalamento?
O professor Nicholas Bellono, autor sênior do estudo, e sua equipe, incluindo o pesquisador principal Pablo Villar, observaram o comportamento do polvo-californiano-de-duas-manchas em laboratório. Como esses animais são criaturas extremamente solitárias e frequentemente lutam até a morte quando colocados no mesmo tanque de água, os pesquisadores utilizaram uma barreira opaca com pequenos buracos para separar os indivíduos durante as análises.
O que os cientistas esperavam era apenas uma fase de adaptação e reconhecimento mútuo, mas o resultado foi imediato e surpreendente. O polvo macho estendeu seu braço especializado pelo buraco da barreira, encontrou a fêmea às cegas, inseriu o membro no manto dela e localizou os tubos que transportam os óvulos. O mesmo comportamento ocorreu repetidas vezes com outros casais, inclusive em completa escuridão.
O que os testes químicos revelaram sobre os cefalópodes?
Para comprovar a hipótese sensorial, a equipe isolou os compostos presentes na pele e nos ovários das fêmeas. A análise química identificou a forte presença de progesterona. Os testes laboratoriais demonstraram os seguintes pontos principais sobre a fisiologia do animal:
- Braços reprodutivos amputados de machos apresentaram forte movimento reativo exclusivamente quando entraram em contato com a progesterona.
- Não houve nenhuma reação do membro quando exposto a outros tipos de hormônios similares no mesmo ambiente aquático.
- Ao substituir a fêmea viva por tubos preenchidos com diferentes substâncias, os machos tentaram acasalar apenas com o tubo que continha progesterona.
Essa capacidade química imediata explica a eficiência reprodutiva da espécie.
“Faz sentido que o braço seja tanto o sensor quanto o órgão de acasalamento porque, nesses encontros casuais, o braço precisa ser capaz de localizar a fêmea, localizar o oviduto e iniciar o acasalamento muito rapidamente ou seguir em frente”, explicou o professor Bellono.
Qual o impacto evolutivo dessa descoberta para a biologia marinha?
Os experimentos complementares mapearam os receptores localizados na ponta do braço especializado dos polvos machos. Os resultados indicaram que essas estruturas celulares parecem ter sofrido uma evolução rápida e recente entre os cefalópodes. O estudo levanta a hipótese científica de que diferentes espécies do animal possam estar sintonizadas para reconhecer sinais químicos completamente distintos nos oceanos.
Para o Brasil, que possui um litoral extenso e abriga diversas espécies comerciais e endêmicas do molusco, como o polvo-comum (Octopus vulgaris) e o polvo-do-nordeste (Octopus insularis), compreender esses mecanismos evolutivos e reprodutivos é fundamental para o manejo sustentável das pescas e a conservação marinha nacional.
Segundo a pesquisa, essa evolução dos sistemas sensoriais funciona para manter as barreiras reprodutivas de cada tipo de polvo, ou pode permitir o cruzamento genético e o surgimento de novas espécies marítimas no futuro.
“Nós realmente não planejamos estudar que esse braço era um sensor. Isso nos foi meio que revelado ao observar os animais”, concluiu Bellono sobre os desdobramentos práticos da observação laboratorial.
