O Rio Grande do Sul foi o estado brasileiro que mais importou cerdas de suínos, nome técnico do pelo de porco, em 2025, concentrando 167,8 mil toneladas do produto e 64,7% do total nacional, segundo dados citados em reportagem publicada em 11 de abril de 2026. O insumo, usado principalmente na fabricação de pincéis, chega majoritariamente da China e atende fábricas instaladas no estado, que utilizam o material por sua capacidade de retenção de tinta. De acordo com informações do g1, o valor investido pelo estado nessas importações foi de US$ 1,56 milhão no período.
A reportagem informa que o principal destino das cerdas de suínos é a indústria de pincéis, especialmente os modelos usados na pintura de paredes. O gerente de Desenvolvimento de Produtos da Pincéis Atlas, Rafael Loose, explicou que esse material é um dos pelos naturais mais comuns na produção desse tipo de item.
“A gente chama de trincha, tecnicamente, mas é pincel tanto de pintura artística, quanto de pintura imobiliária. Eles são originalmente de pelos naturais. Existem vários tipos de pelos naturais que se fazem em pincéis, e um dos mais comuns é o pelo do porco”
Segundo ele, a cerda suína é valorizada porque consegue reter mais tinta. As cerdas importadas já chegam separadas para a fabricação dos pincéis, em um processo hoje mecanizado. Rafael Loose também detalhou que a estrutura do pelo é relevante para o desempenho industrial, especialmente a presença da raiz e o formato que afina até a ponta.
Por que o Rio Grande do Sul importa tanto pelo de porco?
Um dos fatores apontados para a concentração das importações no estado é a presença de fábricas que usam o produto na confecção de pincéis. Além disso, o Rio Grande do Sul mantém forte atuação nas cadeias produtivas de proteína animal. A reportagem destaca que o estado é o terceiro maior produtor de suínos do país e, ao mesmo tempo, o segundo maior exportador.
Esse perfil, porém, não significa disponibilidade de matéria-prima local adequada para a produção de pincéis. Isso porque a maior parte do rebanho gaúcho é criada para o consumo de carne, o que faz com que os animais sejam abatidos ainda jovens, antes do desenvolvimento de pelos mais firmes e resistentes.
“Não é todo o pelo do suíno que é apropriado para a fabricação de pincéis. Alguma parte do pelo do couro tem as cerdas mais fortes e resistentes, mais adequadas em questão de comprimento. Mas o suíno abatido hoje ainda é um animal muito jovem. Tem um pelo mais macio que não teve tempo de se consolidar”
A explicação foi dada por Rogério Kerber, presidente da Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (Acsurs). De acordo com ele, o ciclo da produção de carne limita o aproveitamento dessas cerdas para uso industrial.
O que torna essas cerdas adequadas para pincéis?
O comprimento do pelo é um dos principais critérios na separação das cerdas. Conforme a reportagem, animais mais velhos tendem a apresentar pelos mais altos, o que agrega valor ao produto. Rafael Loose afirmou que a compra da cerda considera justamente essa medida.
“Se compra a cerda por altura. Um animal mais velho vai ter, logicamente, um pelo mais alto. Esse é um pelo mais caro do que o de um animal mais novo, com um pelo mais baixo”
Além da altura, a estrutura natural do material influencia o resultado final no uso. Segundo Rafael, o pelo de porco apresenta características químicas e morfológicas que permitem maior retenção de tinta em comparação com cerdas sintéticas, algo especialmente importante nos pincéis imobiliários, produzidos em maior escala no Brasil.
- Uso principal: fabricação de pincéis, especialmente para pintura imobiliária
- Origem predominante: China
- Critério importante de seleção: comprimento da cerda
- Diferencial do material: maior retenção de tinta
Por que ficou mais caro importar esse produto?
A reportagem aponta que o custo de importação das cerdas de suínos está em alta e relaciona esse movimento à origem do produto. O crescimento econômico da China teria levado trabalhadores a buscar outras profissões, provocando escassez de mão de obra na separação dos pelos.
Esse encarecimento vem produzindo mudanças no mercado. Para reduzir custos, muitas empresas passaram a migrar para cerdas sintéticas. Ainda assim, segundo Rafael Loose, esse material não reproduz integralmente o desempenho do pelo natural.
“Existem vários tipos de pelos naturais com que se fazem em pincéis. O mais comum é o do porco por ser utilizado no pincel imobiliário, que é o que se faz em maior escala no Brasil. Ele tem algumas características que outros tipos de cerdas naturais não têm. A principal é que, quimicamente e morfologicamente, ele consegue reter mais tinta do que um fio sintético. Não é possível copiar. É parecido com o pelo do humano, meio escamado e tem as pontas bifurcadas”
Com isso, o mercado convive com uma pressão de custos ao mesmo tempo em que mantém a demanda por um insumo considerado difícil de substituir em parte da produção de pincéis.