
As populações de peixes migratórios de água doce sofreram uma redução global de 81% desde os anos 1970, apontam novos dados apresentados durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias (COP15), realizada em março de 2026 em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. De acordo com informações do Mongabay Brasil, o cenário é impulsionado pela perda de conectividade dos rios devido a barreiras artificiais e afeta severamente espécies nativas da bacia amazônica.
Durante o evento no BioParque Pantanal, complexo de pesquisa e conservação da capital sul-mato-grossense, especialistas lançaram o relatório de avaliação global das espécies. A secretária de Biodiversidade, Florestas e Direito dos Animais do Ministério do Meio Ambiente, Rita Mesquita, destacou a gravidade da situação em seu discurso de abertura.
Os números são de gelar a espinha.
Por que a avaliação global acende um alerta para a ictiofauna?
Esta foi a primeira vez em mais de uma década que cientistas compilaram dados globais sobre a ictiofauna. A última análise ocorreu em 2011, abrangendo três mil espécies. Na rodada atual, 15 mil foram avaliadas, das quais 349 foram identificadas com o comportamento migratório.
Os autores do estudo recomendaram a inclusão de 325 espécies nos apêndices da convenção da Organização das Nações Unidas (ONU). A entrada nesta lista garante maior proteção jurídica, pois obriga os países signatários a adotarem medidas de conservação. Atualmente, apenas 58 espécies de peixes constam no documento, incluindo a enguia, o esturjão e dois bagres amazônicos: a dourada e a piramutaba, que registraram uma queda populacional de 90% desde a década de 1970.
Como as barreiras físicas ameaçam as espécies da América do Sul?
O principal obstáculo para a preservação desses animais é a manutenção da conectividade nas bacias hidrográficas. Peixes migratórios dependem de corredores fluviais intactos e estratégias integradas, o que se torna complexo em rios alterados pela construção de usinas hidrelétricas, hidrovias e desvios para irrigação agrícola.
O autor principal do estudo, o pesquisador Zeb Hogan, da Universidade de Nevada, nos Estados Unidos, explicou que a América do Sul é uma região crítica, mas que ainda oferece grandes oportunidades para ações de preservação. O continente abriga bacias onde o fluxo das águas permanece parcialmente livre, especialmente no bioma amazônico.
No Brasil, as espécies migratórias fazem parte da economia e da alimentação de milhares de famílias. Durante o evento da ONU, o governo brasileiro conseguiu incluir nos apêndices da convenção uma espécie de pintado que realiza sua jornada pela bacia do Rio da Prata, garantindo protocolos mais rígidos para sua captura.
Qual é o papel do Brasil na proteção dos bagres amazônicos?
A Amazônia dominou os debates na COP15. A secretária-executiva da convenção, Amy Fraenkel, utilizou a dourada como exemplo central para ilustrar a necessidade de políticas transnacionais. Estudos liderados pelos cientistas Ronaldo Barthen e Michael Goelding provaram a magnitude do trajeto percorrido por esses animais. A espécie realiza a maior migração de água doce do mundo, viajando até 11 mil quilômetros desde a base dos Andes até o estuário do Rio Amazonas para crescer e se alimentar, antes de retornar às cabeceiras na fase adulta.
Conhecida em países vizinhos como dorado ou zúngaro dorado, a espécie possui enorme valor comercial. No Pará, o filé de dourada é amplamente comercializado em locais tradicionais como o mercado Ver-o-Peso, em Belém. Durante a cúpula climática, um plano de ação estratégico proposto pelo Brasil foi aprovado por unanimidade no plenário. A iniciativa envolve os cinco países amazônicos onde ocorrem essas migrações:
- Brasil
- Bolívia
- Colômbia
- Equador
- Peru
A secretária de Registro, Monitoramento e Pesquisa do Ministério da Pesca e Aquicultura, Carolina Doria, enfatizou a urgência da execução do acordo internacional.
Agora é o momento de colocar a mão na massa.
Ela apontou que o primeiro passo será a harmonização das estatísticas pesqueiras entre as nações, área em que o território brasileiro ainda apresenta falhas estruturais nos dados de desembarque nos portos da região Norte.
Pesquisas anteriores da própria secretária, realizadas quando atuava na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), demonstraram o impacto imediato das barragens no ecossistema. Os estudos mostraram que o volume de desembarque de douradas nos portos sofreu alterações drásticas após a instalação das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, na calha do Rio Madeira, indicando um provável colapso local das populações de bagres gigantes.