As populações mundiais de peixes migratórios de água doce sofreram uma redução drástica de 81% desde a década de 1970, afetando diretamente espécies emblemáticas da Amazônia. O cenário alarmante foi revelado no dia 24 de março de 2026 durante o lançamento do relatório “A Avaliação Global dos Peixes Migratórios de Água Doce”, no BioParque Pantanal, localizado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. O evento ocorreu durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias, com o objetivo de traçar planos de conservação globais e regionais.
De acordo com informações da Mongabay Brasil, a situação de espécies sul-americanas, como a dourada e a piramutaba — peixes de extrema importância comercial e alimentar para as populações ribeirinhas —, apresenta um declínio ainda mais severo, chegando a 90% no mesmo período de análise.
Por que os peixes migratórios da Amazônia correm risco de extinção?
O principal desafio para a sobrevivência das espécies migratórias é a perda de conectividade das bacias hidrográficas. Esses animais necessitam de corredores fluviais intactos para completar seus ciclos de vida. Na região amazônica, a construção de usinas hidrelétricas, como Santo Antônio e Jirau no Rio Madeira (RO), além da criação de hidrovias e desvios para irrigação, formam barreiras físicas que impedem o deslocamento natural dos cardumes.
A secretária de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Rita Mesquita, destacou a gravidade da situação durante a abertura do evento sul-mato-grossense: “Os números são de gelar a espinha”, afirmou a secretária aos delegados presentes na conferência internacional.
Como funciona a nova proteção internacional para essas espécies?
Nesta rodada de avaliações, os pesquisadores analisaram 15 mil espécies da ictiofauna global, identificando 349 como migratórias. Deste grupo, os especialistas recomendaram a inclusão de 325 nos apêndices da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS) da Organização das Nações Unidas (ONU). A entrada nesta lista obriga os países signatários a adotarem medidas práticas de preservação. Atualmente, a convenção abriga 1.200 espécies catalogadas, sendo a ariranha a última inserção brasileira antes da atual conferência.
Apenas 58 espécies de peixes constavam nos apêndices de proteção, englobando animais como a enguia, o esturjão e os dois grandes bagres amazônicos. O autor principal do estudo globalizado, Zeb Hogan, da Universidade de Nevada, ressaltou o papel do continente no cenário atual: “A região onde a situação é crítica e ainda há grande oportunidade para ação é a América do Sul”, apontou o pesquisador, referindo-se às bacias que ainda mantêm rios conectados.
Qual é o plano de ação definido pelos países sul-americanos?
A preservação dos grandes bagres ganhou urgência devido ao recorde registrado pela espécie Brachyplatystoma rousseauxii. Estudos científicos liderados por pesquisadores como Ronaldo Barthen e Michael Goulding comprovam que a dourada realiza a maior migração de água doce do mundo, percorrendo até 11 mil quilômetros desde o sopé da Cordilheira dos Andes até o estuário do Rio Amazonas. Para proteger essa rota, o governo brasileiro propôs um plano de ação conjunto, aprovado por unanimidade no plenário do evento.
A estratégia transnacional envolve a coordenação de cinco países que compartilham a ocorrência destes grandes bagres migradores na bacia amazônica. Os principais pontos do plano internacional incluem:
- Adoção de ações conjuntas entre Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador e Peru.
- Harmonização da estatística pesqueira e do monitoramento entre as nações fronteiriças.
- Sistematização de dados sobre o desembarque das espécies mais afetadas.
- Proteção de rotas contra o impacto da pesca industrial na foz do Rio Amazonas.
Para a secretária de Registro, Monitoramento e Pesquisa do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), Carolina Doria, a execução do projeto aprovado exige respostas imediatas das nações envolvidas: “Agora é o momento de colocar a mão na massa”, declarou a representante governamental. As pesquisas da secretária indicam um provável colapso das populações na bacia do Rio Madeira após as interferências humanas na infraestrutura fluvial.