A tensão geopolítica envolvendo os Estados Unidos e o Irã no cenário internacional deve refletir diretamente no bolso dos passageiros brasileiros que planejam viajar de avião. Segundo o presidente da Gol Linhas Aéreas, Celso Ferrer, o repasse financeiro decorrente do aumento nos custos de operação para as tarifas aéreas será inevitável, impulsionado pela alta volatilidade no valor global do barril de petróleo.
De acordo com informações do Canaltech, o alerta para o setor da aviação comercial se consolidou após a estatal Petrobras, principal fornecedora de combustível de aviação no país, aplicar um reajuste de 9,4% no valor do querosene de aviação (QAV) logo no início de março de 2026. O executivo-chefe da companhia aérea reforçou que, embora o segmento tenha mecanismos de contenção e resiliência, uma parcela desta pressão orçamentária precisará ser transferida ao consumidor final na hora da compra dos bilhetes.
Como as companhias aéreas brasileiras reagem ao aumento do petróleo?
Mesmo diante do cenário adverso oriundo do Oriente Médio, as lideranças corporativas apontam que a aviação nacional possui capacidade técnica de suporte e resiliência. O setor trabalha historicamente com uma margem de tolerância previamente estabelecida para suportar choques temporários na economia global. Contudo, a constante flutuação e a falta de previsibilidade do mercado energético atuam como fatores de estresse financeiro permanente na estrutura de despesas das empresas de transporte aéreo de passageiros.
Em meio a este quadro de instabilidade internacional e flutuação de insumos, a Gol Linhas Aéreas fez questão de sinalizar ao mercado que o atual momento de turbulência não vai alterar o planejamento estratégico corporativo estabelecido a longo prazo. O presidente da companhia aérea assegurou que as metas de expansão internacional, bem como a consolidação das operações por meio de um novo centro de conexões de voos (hub) com foco intercontinental sediado no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, seguem inalteradas como as principais prioridades da operação de transporte de passageiros.
Por que o custo do querosene de aviação é mais caro no Brasil?
A atual alta das tarifas possui vínculo direto com a valorização do petróleo comercializado no exterior, impulsionada de forma significativa pelas tensões entre os Estados Unidos e o Irã. No entanto, a pressão financeira sobre as operadoras de frota comercial que atuam em território nacional acaba sendo severamente acentuada devido a características específicas da economia local e restrições do mercado interno.
Um levantamento elaborado e divulgado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) no ano passado, em 2025, ilustra de maneira clara o tamanho deste impacto logístico e operacional. Os dados do relatório estatístico apontam uma disparidade contundente quando a operação comercial doméstica é comparada ao panorama mundial de tráfego aéreo.
Para evidenciar a dimensão operacional do problema tarifário, o estudo da confederação de transportes detalhou os principais motivadores dessa discrepância estrutural de gastos no país. Os indicadores consolidados pela análise revelam as seguintes bases que acabam por agravar o orçamento do mercado aéreo em solo brasileiro:
- O gasto com combustível na aviação comercial é responsável por comprometer exatos 36% do total de despesas operacionais das empresas que atuam no território nacional.
- No panorama mundial da aviação civil, a média global de impacto direto da compra de insumo energético na operação de transporte é de apenas 31%.
- A forte e contínua dependência das flutuações da taxa de câmbio prejudica a consolidação do planejamento financeiro das companhias locais.
- A presença crônica de gargalos logísticos no segmento de transporte interno acaba por dificultar a distribuição rápida e barata do produto.
- A atual estrutura concentrada e reduzida da indústria de refino brasileira contribui fortemente para o encarecimento direto do insumo básico indispensável aos aviões.
Portanto, a combinação do reajuste de março efetuado pela Petrobras no valor final de repasse do querosene com a limitação da infraestrutura nacional cria um ambiente operacional de margens contábeis bastante estreitas. Sem a possibilidade de absorver integralmente o choque contínuo da elevação da cotação do mercado energético e cambial — uma vez que o setor é fortemente dolarizado —, a aplicação do reajuste diretamente nos valores das passagens se apresenta como uma resposta estrutural das gestões de voos comerciais do país.



