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Ostras no Japão morrem em massa e ameaçam produção na província de Hiroshima

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Cultivo de ostras em fazenda marinha com dezenas de conchas abertas e vazias presas a cordas suspensas na água.
Foto: bshamblen / flickr (by)

A morte em massa de ostras na província de Hiroshima, no Japão, tem afetado produtores, restaurantes e consumidores durante a temporada de colheita de 2025-2026, que vai até maio de 2026. Segundo autoridades e especialistas ouvidos na reportagem, a combinação de águas mais quentes no mar interior de Seto e o verão excepcionalmente quente de 2025 reduziu o oxigênio e o alimento disponíveis para os moluscos, elevando a mortalidade a níveis incomuns. De acordo com informações do Guardian Environment, algumas áreas de Hiroshima registraram taxa de mortalidade de até 90% nesta temporada. Para o leitor brasileiro, o caso chama atenção por mostrar os impactos do aquecimento das águas sobre a aquicultura e a oferta de alimentos, um tema que também interessa a produtores e consumidores em outros países.

O problema tem sido sentido especialmente em Kure, cidade costeira de Hiroshima, onde festivais e restaurantes dedicados ao produto enfrentam escassez e redução no tamanho das ostras ofertadas. A crise atinge uma região central para a ostreicultura japonesa: Hiroshima respondeu por 89 mil toneladas de ostras cultivadas em 2023 e representa quase dois terços da oferta nacional do produto, enquanto as pescarias espalhadas pelo mar interior de Seto produzem 80% das ostras do país. O mar interior de Seto é uma importante área costeira do oeste do Japão, cercada por ilhas e províncias com forte atividade pesqueira e aquícola.

Por que as ostras estão morrendo em Hiroshima?

Produtores e especialistas associam o fenômeno ao aumento da temperatura do mar e ao calor extremo registrado no Japão em 2025. A reportagem informa que a temperatura média do verão japonês ficou 2,36°C acima do normal, no verão mais quente desde o início dos registros, em 1898. Já as temperaturas médias da água ao longo da costa de Hiroshima, entre julho e outubro de 2025, ficaram entre 1,5°C e 1,9°C acima da média de 1991 a 2020, de acordo com dados do governo local.

Shoichi Yokouchi, chefe da divisão de produtos marinhos do governo provincial de Hiroshima, afirmou que temperaturas elevadas por algumas semanas enfraquecem as ostras e as tornam mais suscetíveis a vírus e bactérias. Já Kazuhiko Koike, professor da Escola de Pós-Graduação em Ciências Integradas para a Vida da Universidade de Hiroshima, disse que condições ambientais anormais ligadas ao aquecimento global e à mudança climática, como altas temperaturas do ar e da água, baixos níveis de oxigênio, pouca chuva e escassez de nutrientes e alimento, podem estar por trás da mortandade em massa.

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Qual é o impacto para produtores e economia local?

Taketoshi Niina, chefe da empresa de cultivo Niina Suisan, em Kure, classificou a atual safra como um desastre. Segundo ele, cerca de 80% das ostras de sua produção estão mortas quando são retiradas da água, e parte das sobreviventes não tem qualidade suficiente para ser vendida a lojas e restaurantes. Em seu relato à reportagem, Niina afirmou que a situação já começou a afetar financeiramente o negócio e levantou dúvidas sobre a viabilidade do setor no futuro.

“Isso é algo fora do comum. E muitas das que sobrevivem estão em más condições… não têm qualidade alta o suficiente para serem vendidas a lojas e restaurantes.”

A preocupação vai além das fazendas marinhas. Tomonori Uemoto, diretor do escritório de promoção pesqueira do governo municipal de Kure, afirmou que a produção local de ostras sustenta não só a pesca, mas também empregos em distribuição e no turismo gastronômico. Um restaurante temporário da cidade, o Kure Oyster Land, encerrará as atividades mais cedo em 2026 por falta de produto. Além disso, contribuintes que destinam parte do imposto de renda ao município por meio de um programa de apoio local não receberão o tradicional brinde de ostras cruas.

Quão grave é a mortalidade nesta temporada?

De acordo com o Ministério da Pesca, em um ano típico a mortalidade das ostras varia de 30% a 50%, mas na temporada de 2025-2026 o índice chegou a 90% em partes de Hiroshima. O produtor Tatsuya Morio, que cultiva ostras há mais de 20 anos na província, disse à reportagem que nunca havia vivido algo semelhante em toda a carreira.

Niina percebeu que havia algo errado em outubro de 2025, no início da colheita anual, quando ele e outros pescadores encontraram quantidades anormalmente altas de ostras mortas. O padrão estaria se repetindo em províncias ao longo da costa do mar interior de Seto, de Hiroshima, no oeste, até Hyogo, no leste, embora os danos mais severos tenham sido registrados em Hiroshima.

  • Mortalidade típica: de 30% a 50%
  • Mortalidade na temporada de 2025-2026 em partes de Hiroshima: até 90%
  • Produção de Hiroshima em 2023: 89 mil toneladas
  • Participação de Hiroshima na oferta nacional: quase dois terços

Que medidas estão sendo adotadas e o que pode acontecer?

Em resposta à crise, a agência de pesca do Japão anunciou em dezembro de 2025 medidas para apoiar os produtores de ostras em dificuldade. Entre elas estão empréstimos governamentais com prazo de cinco anos e juros próximos de zero, além de acesso a programas de ajuda mútua voltados a negócios de aquicultura.

Koike afirmou que, se o período de chuvas voltar a terminar cedo e for seguido por calor prolongado, a combinação de pouco oxigênio e falta de alimento pode se repetir. Como possibilidades de adaptação, ele citou a transferência das estruturas de cultivo para áreas com temperatura da água um pouco menor e maior disponibilidade de alimento, ou a suspensão das ostras em profundidades maiores para evitar águas superficiais mais quentes.

No entanto, a incerteza permanece entre os produtores. Niina, que entrou no cultivo de ostras há uma década depois de deixar o emprego em uma empresa, disse que o filho havia decidido assumir o negócio no futuro, mas que a crise de 2025-2026 levantou dúvidas sobre a existência de perspectiva para a próxima geração no setor.

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