As religiões monoteístas modernas evoluíram de forma gradual ao longo de mais de três milênios, impulsionadas profundamente por catástrofes históricas, guerras e traumas coletivos no Oriente Próximo. Para o Brasil, que possui a maior população cristã do mundo, essa perspectiva científica lança nova luz sobre as origens históricas da fé que moldou grande parte da cultura nacional. A conclusão baseia-se em décadas de pesquisas arqueológicas e históricas que investigam as origens da adoração a um Deus único por bilhões de judeus, cristãos e muçulmanos ao redor do mundo, descartando a ideia de um surgimento divino repentino.
De acordo com informações publicadas no início de abril de 2026 pela UOL Notícias, o desenvolvimento da crença em uma divindade exclusiva ocorreu em etapas. O registro científico aponta que o Deus do Antigo Testamento e do Corão adquiriu suas características a partir de figuras divinas preexistentes, sendo diretamente moldado pelas pressões de colapsos sociais na Antiguidade.
Como o nome de Deus surgiu nos registros históricos?
A figura central das fés monoteístas tem seu nome grafado nos textos hebraicos pelo Tetragrama Sagrado, formado por quatro consoantes e frequentemente transliterado como YHWH. Embora a pronúncia exata permaneça incerta devido à ausência de marcação de vogais na escrita original, pesquisadores indicam que a palavra inicial seria semelhante a “Iahweh”, posteriormente adaptada para o português como Javé.
Os primeiros indícios deste nome aparecem em inscrições egípcias datadas do reinado do faraó Amenófis III, entre os anos de 1390 e 1352 antes da Era Comum. Os artefatos mencionam a presença de tribos de beduínos, chamadas de Shasu, em territórios que hoje englobam a Jordânia, o noroeste da Arábia Saudita, Israel e a Palestina. Os documentos associam essa população nativa ao termo YHWA.
Quais são as evidências sobre o Êxodo e a conquista de Canaã?
Apesar das narrativas literárias sobre a presença israelita no Egito e a posterior fuga em massa liderada por Moisés, as escavações modernas não confirmam a veracidade desses eventos. Os arqueólogos Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman, autores de pesquisas cruciais sobre a região, apontam que a movimentação de milhões de escravizados pelo deserto do Sinai durante quatro décadas teria obrigatoriamente deixado vestígios materiais, o que não foi detectado nos sítios escavados.
A suposta conquista militar da terra de Canaã por Josué, marcada pelo extermínio das populações nativas por ordem divina, também carece de comprovação arqueológica. O território cananeu, que abrigava cidades-Estado como Jerusalém e Megido, era fortemente controlado pelo Império Egípcio. Qualquer fuga de trabalhadores forçados para essa área significaria permanecer sob a jurisdição política e militar do faraó governante.
De que forma os colapsos sociais impulsionaram o monoteísmo?
A emergência histórica do povo de Israel coincide exatamente com um período de instabilidade civilizacional conhecido como o colapso do fim da Idade do Bronze no Mediterrâneo. Durante essa transição drástica, as redes de comércio internacional e as estruturas palacianas que conectavam a Mesopotâmia à Grécia desapareceram subitamente, dando início a séculos de simplificação tecnológica, política e econômica.
Os cientistas e historiadores contemporâneos atribuem essa queda em dominó a uma combinação de fatores simultâneos na Antiguidade. As principais causas documentadas que justificam essa crise incluem:
- Secas prolongadas que destruíram a base da agricultura local;
- Surtos de atividade tectônica e grandes terremotos territoriais;
- Invasões agressivas de povos estrangeiros não identificados;
- Revoltas internas nas principais cidades-Estado da época.
Foi no vasto vácuo de poder deixado por essas catástrofes que surgiram dezenas de novos assentamentos na região montanhosa central de Canaã, correspondente à atual Cisjordânia. Os habitantes dessas áreas não eram conquistadores externos, mas sim populações locais que compartilhavam cultura material e linguística ininterrupta com os cananeus mais antigos.
A continuidade histórica das populações é comprovada pelas semelhanças diretas entre o hebraico primitivo e outros idiomas falados na bacia mediterrânea. A língua dos primeiros israelitas operava praticamente como um dialeto do mesmo grupo linguístico do fenício e do ugarítico. A recente descoberta de textos em ugarítico, oriundos de uma cidade portuária síria destruída por volta do ano 1200 antes da Era Comum, revolucionou a compreensão acadêmica sobre as raízes históricas das narrativas sagradas e a longa consolidação do monoteísmo.