
Os oceanos estão absorvendo 91% do excesso de energia retido no sistema climático da Terra, segundo um novo indicador incluído em relatório recente da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado no domingo, 30 de março de 2026. A informação ajuda a explicar como o aquecimento global continua avançando, com impacto sobre a pesca, ecossistemas marinhos, erosão costeira e até a produção de alimentos em terra. Para o Brasil, o tema é relevante tanto pela extensão do litoral quanto pelo peso da pesca, da aquicultura e da agropecuária na segurança alimentar e na economia. De acordo com informações da Grist, o novo dado procura mostrar de forma mais clara a dinâmica física por trás da mudança do clima.
O indicador adicionado pela OMM é o chamado desequilíbrio energético da Terra, definido como a diferença entre a energia que o planeta recebe do Sol e a quantidade que devolve ao espaço. Segundo John Kennedy, autor principal e coordenador científico do relatório, a temperatura média global da superfície costuma dominar o debate sobre clima, mas oscilações anuais associadas a padrões como El Niño e La Niña podem encobrir a tendência de longo prazo do aquecimento.
“Enquanto esse desequilíbrio de energia existir, a Terra continuará aquecendo, o gelo continuará derretendo e o nível do mar continuará subindo”, afirmou.
O relatório aponta que, por causa do efeito estufa, a Terra vem retendo cada vez mais energia, sobretudo na forma de calor, desde a década de 1960. Além disso, essa taxa bateu recorde em cada um dos últimos nove anos. Nesse contexto, os oceanos aparecem como o principal destino desse calor adicional, o que ajuda a contextualizar outros indicadores já acompanhados pela OMM, como a elevação do nível do mar e o derretimento de geleiras.
Por que o aquecimento dos oceanos preocupa a segurança alimentar?
O aumento da temperatura dos oceanos traz consequências relevantes para os sistemas alimentares. O texto destaca que mares mais quentes favorecem o branqueamento de corais, a degradação de habitats e a redução da produtividade pesqueira. A elevação do nível do mar também intensifica a erosão costeira, afetando o sustento de trabalhadores da pesca e de populações que dependem desse recurso como fonte de alimento. No caso brasileiro, essas mudanças podem atingir comunidades pesqueiras ao longo da costa e atividades econômicas ligadas ao mar.
Em terra, o derretimento de geleiras também pode provocar enchentes e comprometer atividades agrícolas. Assim, o impacto do desequilíbrio energético não se restringe ao ambiente marinho, mas alcança cadeias alimentares mais amplas, tanto por alterações na oferta de pescado quanto por danos indiretos à produção rural. Para um país com forte participação da agropecuária no abastecimento interno e nas exportações, alterações climáticas que afetam a produção de alimentos ganham dimensão nacional.
- Branqueamento de corais
- Degradação de habitats marinhos
- Queda na produtividade da pesca
- Erosão costeira
- Enchentes associadas ao derretimento de geleiras
Como cientistas interpretam esse novo indicador climático?
Jennifer Jacquet, professora de ciência e política ambiental da Universidade de Miami, afirmou à Grist que apreciou a tentativa da OMM de reformular a maneira de comunicar a crise climática, com ênfase na relação entre oceanos e aquecimento global. Embora os oceanos sejam frequentemente descritos como sumidouros de carbono, ela prefere chamá-los de “esponjas de carbono”, para destacar que esses ecossistemas têm limites de saturação.
Segundo Jacquet, a grande capacidade dos oceanos de sequestrar carbono pode ter ajudado a mascarar o avanço das mudanças climáticas neste século, ao absorver mais calor do que o refletido de volta ao espaço. Ela também pondera que a relação entre oceanos mais quentes e segurança alimentar é complexa, especialmente quando se considera a aquicultura.
O texto cita como exemplo um episódio ocorrido no Chile, em 2016, quando um produtor relatou mortalidade maior de salmões do Atlântico após uma floração de algas, já que os peixes cultivados não conseguiam escapar. Jacquet argumenta ainda que peixes de criação costumam abastecer populações de renda mais alta, e não necessariamente grupos em insegurança alimentar.
O que acontece com os peixes selvagens à medida que o oceano aquece?
De acordo com a pesquisadora, populações de peixes selvagens estão migrando em direção ao Norte e ao Sul do planeta, onde águas relativamente mais frias têm mais oxigênio. Esse movimento tende a prejudicar a subsistência de pescadores em áreas próximas ao Equador e pode agravar a insegurança alimentar nessas regiões. Como parte relevante do litoral brasileiro está na faixa tropical do Atlântico Sul, mudanças na distribuição de espécies têm potencial para afetar a pesca e o abastecimento de pescado no país.
Segundo ela, os oceanos estão chegando ao limite do que podem fazer para ajudar a compensar mudanças causadas pela ação humana, e cientistas e comunicadores da ciência devem buscar formas de representar essa realidade com clareza.
Ao destacar o desequilíbrio energético da Terra como novo indicador-chave, a OMM busca oferecer uma leitura mais direta do mecanismo central da crise climática. A conclusão apresentada no texto é que, enquanto esse desequilíbrio persistir, o planeta continuará aquecendo, com efeitos encadeados sobre gelo, nível do mar, ecossistemas e produção de alimentos.