
A consolidação da presença de mulheres no futebol, tanto dentro das quatro linhas quanto nas cabines de transmissão, permanece como um desafio significativo no Brasil em 2026. De acordo com reportagem divulgada no início de abril deste ano pela Radioagência Nacional (veículo da EBC), atuar em cenários tipicamente masculinos impõe barreiras elevadas para atletas, narradoras e meninas que dão os primeiros passos na modalidade. Permanecer neste espaço exige uma forte determinação diária para reverter os efeitos de quase 40 anos em que a prática esportiva foi oficialmente proibida para o público feminino no país — um veto instituído em 1941, durante a Era Vargas, e que durou até 1979.
Essa proibição histórica deixou marcas profundas na forma como o esporte é estruturado e consumido, refletindo diretamente nas estatísticas. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) mantém levantamentos, como os dados consolidados referentes ao ano de 2022, que ilustram de forma clara a disparidade. Segundo aquele mapeamento oficial, o país contava com apenas 360 jogadoras profissionais registradas, além de um número alarmante na arbitragem, com somente 17 árbitras atuando no quadro principal.
Por que a representatividade na mídia esportiva é fundamental?
A necessidade de ver outras mulheres ocupando papéis de destaque é um dos pilares para a transformação estrutural do cenário esportivo brasileiro. A jornalista esportiva e comentarista Renata Mendonça, profissional do Grupo Globo e cofundadora do projeto Dibradoras, destaca a importância de criar referências concretas para as futuras gerações não desistirem da profissão.
Tem uma frase da Billie Jean King que ela fala que você tem que ver para querer ser. Você tem que ver alguém como você fazendo algo para que você possa sonhar com aquilo. Então, para as mulheres, era impossível sonhar em ser narradora, em ser comentarista, porque não existia! Como é que você vai sonhar em ocupar um espaço que você não vê ninguém igual a você?
— Publicidade —Google AdSense • Slot in-article
O depoimento reforça a percepção de que a ausência histórica de vozes femininas nas transmissões esportivas e no jornalismo não ocorria por falta de interesse, mas devido a uma exclusão sistêmica que impedia a simples visualização dessa possibilidade de carreira na comunicação.
Como a coletividade fortalece a inserção no esporte?
A trajetória de pioneirismo traz consigo um peso emocional e profissional gigantesco. Milly Lacombe, colunista do UOL e reconhecida como a primeira mulher a atuar como comentarista de futebol na televisão brasileira (com passagens pioneiras por canais como Record e SporTV), reflete sobre a complexidade dessa jornada contínua e a necessidade de apoio mútuo para suportar as pressões diárias.
Eu aprendi que a luta vale a pena. Vai ter dias que a gente vai querer desistir, algumas de nós vão ficar pelo caminho, mas esse não é um jogo de uma pessoa só. Eu acho que, para cada uma de nós que cai, existem muitas vindo aí. E está tudo certo em desistir, não há problema nenhum em desistir, com a consciência de que a gente fez o que a gente pôde fazer e de que alguém vai pegar o bastão que a gente largou e correr a partir dali. Sabe? A gente não está aqui por nós, a gente está aqui pela comunidade. Eu acho que ninguém vai se salvar sozinho. O futebol sempre me deu a certeza de que a gente está junto, mas a luta feminista me mostrou que a gente está juntas. E isso é muito importante.
Quais são os passos para um ambiente esportivo mais inclusivo?
Para que o panorama atual se modifique de maneira sustentável e duradoura, não basta apenas a força de vontade e o talento individual das profissionais envolvidas. A construção de um cenário igualitário aponta para a exigência de ações estruturais que garantam a segurança e a evolução da modalidade feminina em todo o território nacional.
Dentre as principais necessidades estabelecidas para consolidar de vez este espaço e assegurar que as trabalhadoras conquistem os mesmos direitos, destacam-se fatores cruciais:
- Incentivo constante à coragem e ao encorajamento de novas profissionais nas redações esportivas;
- Implementação de estruturas físicas e institucionais adequadas para o desenvolvimento de atletas e equipes de jornalismo;
- Criação, manutenção e fiscalização de políticas públicas efetivas direcionadas à equidade de gênero dentro do esporte.
Somente por meio da aplicação rigorosa de todos esses elementos integrados será possível superar as cicatrizes deixadas pelas quase quatro décadas de proibição oficial, transformando a presença feminina no futebol em uma realidade inquestionável e consolidada.