O Ministério Público Federal (MPF) pediu, no dia 31 de março de 2026, o arquivamento de um inquérito criminal instaurado em Diadema (SP) que investigava uma suposta espionagem corporativa envolvendo a disputa pelo controle da Eldorado Celulose, um dos maiores ativos do setor de papel e celulose no Brasil. A investigação analisava o suposto desvio de 70 mil e-mails corporativos da Eldorado Brasil, da J&F e da JBS durante o embate societário.
De acordo com informações do UOL Notícias, a decisão processual foi motivada pela constatação de falhas graves na cadeia de custódia das provas digitais colhidas ao longo de quase sete anos de apuração. As evidências técnicas não foram consideradas robustas o suficiente para embasar e sustentar uma denúncia formal perante a Justiça.
Por que o inquérito sobre os e-mails corporativos foi arquivado?
O órgão federal identificou que os laudos periciais referentes aos arquivos digitais apresentaram divergências insanáveis. As avaliações foram produzidas tanto pelo Instituto de Criminalística de São Paulo quanto por uma empresa privada contratada pela J&F, holding gerida pelos empresários Joesley e Wesley Batista. A principal divergência técnica ocorreu nos códigos hash, que funcionam como impressões digitais únicas dos arquivos virtuais e servem para atestar sua integridade e autenticidade.
O inquérito original apurava a suspeita de invasão dos sistemas de informática da empresa CTI NET Soluções em Conectividade e Informática, em um episódio ocorrido em junho de 2019, resultando no indiciamento inicial de sete pessoas. Contudo, o Ministério Público concluiu que os problemas processuais ocorridos comprometeram todo o arcabouço probatório, tornando as dúvidas sobre o material apreendido insuperáveis para a continuidade da ação penal.
Quais foram as falhas apontadas durante as investigações policiais?
Um dos fatores centrais que invalidaram as provas ocorreu durante a execução dos mandados de busca e apreensão autorizados pelo Judiciário. As autoridades permitiram o acompanhamento e a interferência direta de partes interessadas no andamento do processo.
- Representantes executivos da J&F acompanharam ativamente os procedimentos de busca executados pelos agentes de segurança pública.
- Funcionários da Ventura Enterprise Risk Management, consultoria indicada formalmente pela própria holding, participaram diretamente das ações de varredura.
- A guarda e a custódia prolongada dos dispositivos eletrônicos apreendidos ficaram sob a responsabilidade dessas entidades privadas, quebrando a isenção necessária exigida em lei para a preservação de provas criminais.
Como começou a disputa societária pelo controle da Eldorado?
O conflito empresarial teve seu marco inicial em setembro de 2017, quando a J&F firmou um acordo para vender 49,41% das ações da Eldorado Celulose para a Paper Excellence, companhia de propriedade do executivo indonésio Jackson Wjaya. A transação inicial foi avaliada em R$ 3,8 bilhões. Pelo contrato então estabelecido, os 50,59% restantes do capital da fabricante deveriam ser transferidos no prazo de 12 meses.
O impasse jurídico surgiu no ano seguinte, quando a Paper Excellence acusou a J&F de criar barreiras sistemáticas e burocráticas para evitar a liberação de garantias associadas a empréstimos e dívidas corporativas da fabricante, o que inviabilizaria a conclusão do negócio no prazo estipulado. A holding brasileira rebateu as acusações no foro competente, alegando que a compradora estrangeira utilizou a disputa judicial como pretexto por não possuir a liquidez financeira necessária para honrar os valores previstos no contrato de compra e venda.
Qual foi o desfecho do embate corporativo entre as holdings?
Além das brigas criminais envolvendo as supostas espionagens de e-mails entre advogados, a venda do controle da empresa enfrentou outros obstáculos de ordem judicial. Uma ação civil protocolada no Tribunal Regional Federal da Quarta Região (TRF-4) questionou a constitucionalidade de uma empresa com capital majoritariamente estrangeiro adquirir o controle de terras rurais brasileiras agregadas ao negócio.
Todo esse processo corporativo se arrastou por diferentes instâncias, tramitando por tribunais arbitrais, pelo Tribunal de Justiça de São Paulo e pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). O ponto final da disputa ocorreu apenas em maio de 2025, momento em que a Paper Excellence aceitou um acordo financeiro proposto pela concorrente. A J&F pagou US$ 2,64 bilhões à vista para recomprar os 49,41% dos papéis que haviam sido vendidos anteriormente, retomando assim o controle administrativo e financeiro integral da Eldorado Celulose de maneira definitiva.


