Desde o ano de 2023, o Irã assumiu a liderança global nos registros de mortes e desaparecimentos de migrantes em rotas de fuga. O país do Oriente Médio concentrou quase quatro mil ocorrências até fevereiro de 2026, cenário impulsionado por condições geográficas extremas e pela vulnerabilidade de refugiados que tentam escapar de crises humanitárias e econômicas em nações vizinhas.
De acordo com reportagem da Folha de S.Paulo, os dados foram compilados originalmente pela Organização Internacional para as Migrações (OIM), agência da ONU que rastreia essas fatalidades desde o ano de 2014. No panorama mundial, mais de 75.900 migrantes perderam a vida ou desapareceram durante seus trajetos ao longo desta última década.
Por que as rotas migratórias iranianas são tão letais?
A escalada de fatalidades no território iraniano começou a ganhar força no período pós-pandemia. Em 2022, a nação superou os Estados Unidos em número de incidentes e, no ano seguinte, ultrapassou a Líbia. Apenas em 2024, o Irã registrou o pico de sua série histórica, contabilizando 1.508 ocorrências em seu solo.
Porta-vozes da agência internacional explicam que o perigo nas fronteiras iranianas é resultado de uma perigosa combinação de fatores ambientais e falta de proteção oficial para os deslocados.
“Há condições ambientais extremas, especialmente em travessias montanhosas durante o inverno, trilhas longas e remotas com acesso limitado a serviços; violência e abuso; transporte perigoso e acidentes com veículos”, diz a organização.
Qual o impacto das crises regionais neste fluxo?
O fluxo intenso de refugiados rumo ao Irã está diretamente ligado ao colapso político de países próximos. Segundo Danny Zahreddine, professor de Relações Internacionais da PUC Minas e coordenador da Cátedra Sergio Vieira de Mello, o retorno do grupo extremista Talibã ao poder no Afeganistão foi um divisor de águas. Essa crise humanitária tem reflexos diretos no Brasil, que desde 2021 mantém uma política de concessão de vistos humanitários para acolher refugiados afegãos que fogem do regime.
“O Talibã endurece as regras sociais e culturais, restrições a bens, serviços, comida e trabalho. As mulheres vão se tornar cada vez mais marginalizadas e isso tem gerado nos últimos anos um fluxo cada vez maior de afegãos que deixam o país”, explica o professor.
O especialista ressalta que esse desespero fomenta o surgimento de contrabandistas que transportam pessoas de forma irregular, com total desrespeito à vida humana. Além disso, muitos utilizam o Irã apenas como ponte para chegar à Turquia e ao Iraque, buscando oportunidades de trabalho e fugindo da grave crise econômica iraniana, que é agravada por sanções internacionais, secas severas e desemprego estrutural.
Como se comparam os dados globais de mortalidade?
Apesar de o Irã liderar os dados recentes, o cenário histórico aponta outras rotas com números altamente expressivos. As estatísticas oficiais demonstram os seguintes marcos trágicos ao redor do mundo:
- A rota do Mediterrâneo Central permanece como a mais mortal da história, com 24,6 mil casos registrados em países como Líbia, Itália, Grécia e Tunísia.
- A Líbia lidera o acumulado histórico global com quase 21 mil registros de óbitos ou sumiços desde 2014, consequência direta da guerra civil na Síria.
- Os trajetos que partem do Afeganistão ocupam a quinta posição mundial, acumulando 5.311 incidentes trágicos.
- A fronteira entre os Estados Unidos e o México contabiliza 5.123 mortes ou desaparecimentos confirmados no mesmo período.
O que explica a recente queda nos registros mundiais?
Após o pico global de quase 9.000 fatalidades em 2024, o ano de 2025 apresentou uma queda de 15% nos registros, totalizando 7.550 casos. Contudo, as autoridades alertam que isso não significa necessariamente que as travessias se tornaram mais seguras.
A diminuição dos números reflete o corte de verbas para as entidades humanitárias que documentam essas tragédias. As restrições orçamentárias, que ganharam força durante a gestão de Donald Trump nos Estados Unidos, prejudicaram severamente o monitoramento em campo.
“Restrições de financiamento e o aumento das limitações impostas aos atores humanitários que trabalham ao longo das principais rotas migratórias limitaram a capacidade de recolher e verificar dados de forma sistemática”, conclui a agência.
Diante do atual cenário do Oriente Médio, as previsões da OIM apontam para um novo aumento no deslocamento de afegãos após os feriados religiosos no Irã, o que mantém o Consórcio de Fronteira mobilizado para fornecer assistência emergencial, refeições e cuidados de saúde aos indocumentados.


