
O aumento exponencial na importação de morango congelado oriundo do Egito está causando grande apreensão entre os produtores agrícolas de Minas Gerais, principal polo de cultivo da fruta no Brasil. De acordo com informações da Folha S.Paulo, o volume da iguaria comprado pelo mercado nacional disparou nas últimas temporadas comerciais, resultando em uma queda acentuada nos preços internos e ameaçando a sustentabilidade financeira de milhares de pequenas propriedades rurais locais.
Por que a importação do morango egípcio cresceu tanto no Brasil?
A raiz desta alteração mercadológica está em um tratado internacional firmado há mais de uma década. O acordo de livre comércio entre o Mercosul (bloco sul-americano do qual o Brasil é membro) e o país africano, assinado no ano de 2010 e em vigor desde 2017, estabeleceu reduções tarifárias graduais para uma série de bens de consumo. Classificada na cesta D do documento oficial, a fruta passou a ter um corte progressivo de dez por cento ao ano em seu imposto de importação. A previsão é que a taxa alfandegária seja completamente zerada em setembro de 2026.
Os impactos dessa abertura econômica são plenamente verificáveis nos registros institucionais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), pasta atualmente comandada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin. Os números detalham a evolução acelerada da entrada do produto estrangeiro no país:
- Em 2022, o Brasil importou cerca de 2,2 mil toneladas da versão congelada;
- Em 2025, o volume atingiu a expressiva marca de 35,9 mil toneladas;
- O salto representa uma elevação de 1.400%, ou 15 vezes, em um curto intervalo de tempo;
- A nação africana foi responsável por 85% do total dessas importações no último ano.
Como a desvalorização da fruta afeta os agricultores regionais?
A modalidade congelada da fruta é direcionada principalmente à indústria de processamento de alimentos. O formato historicamente serve como uma alternativa de escoamento para os agricultores brasileiros quando a versão in natura, vendida diretamente para sobremesas e varejo, sofre variações climáticas ou logísticas. Contudo, com a entrada agressiva e barata do concorrente internacional, os preços de venda desabaram bruscamente.
O revés financeiro é sentido na base da cadeia produtiva. O agricultor Denis Dias, que administra uma área de cultivo de três hectares na cidade mineira de Alfredo Vasconcelos, localizada na região do Campo das Vertentes, relatou as extremas dificuldades enfrentadas na comercialização de sua última safra: “A gente não vê com bons olhos o mercado de morango congelado. Em novembro de 2025 vendia a R$ 10 o quilo, a gente baixou para R$ 8 até o fim do ano. Depois a gente teve que cortar para R$ 7, e agora chegou a R$ 6”, desabafou o produtor rural.
O custo médio de produção nacional gira em torno de R$ 4,50 por cada quilo cultivado. Em contrapartida, as estatísticas governamentais apontam que o produto estrangeiro chegou ao território brasileiro no último ano custando, em média, um dólar (cerca de R$ 5,16) por quilo. A dura competição fez com que até o formato in natura despencasse nas prateleiras, passando de R$ 25 no período natalino para a faixa atual de R$ 10.
Quais são os riscos imediatos para a agropecuária nacional?
O cenário incerto atinge diretamente uma rede formada por mais de 11 mil pequenos produtores apenas no estado mineiro, contingente que responde por quase a totalidade da colheita local, conforme levantamentos divulgados pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG). Atualmente, o Brasil inteiro colhe cerca de 190 mil toneladas anuais, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A principal preocupação da classe trabalhadora é a dificuldade técnica e logística de transição de negócios caso o atual cultivo se torne irreversivelmente inviável. Mariana Marotta, analista de agronegócios da Federação da Agricultura e Pecuária de Minas Gerais (Faemg), enfatiza a vulnerabilidade dos profissionais rurais diante de uma possível prática de dumping comercial, manobra em que produtos são exportados com preços abaixo do custo para dominar as vendas de uma região: “E se isso acontecer com o morango? São produtores menores, que em sua maioria têm apenas aquela cultura, migrar para outra não é tão simples. Será que o produtor de morango consegue esperar dois anos?”, questionou a especialista, referindo-se à lentidão na tramitação de investigações de defesa comercial mantidas pelo governo federal.
O panorama já aciona o alerta máximo em entidades operacionais. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) confirmou que está analisando atenciosamente o excedente de importações do segmento frutífero. A instituição estuda potenciais trâmites legais para resguardar a indústria local contra a concorrência possivelmente desleal, movimento semelhante aos inquéritos federais em curso referentes à importação excessiva de leite em pó do Uruguai e da Argentina.