A Mongabay foi laureada com o primeiro lugar no Prêmio Andifes de Jornalismo, concedido pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). A premiação reconheceu uma investigação de 2025 que expôs a compra em larga escala de carne de tubarão por instituições governamentais para servir em escolas públicas, hospitais e prisões. De acordo com informações da Mongabay Brasil, o anúncio foi feito em 24 de fevereiro. A Andifes destacou que o trabalho jornalístico se sobressaiu pela análise dos impactos ambientais, sanitários e regulatórios do tema, embasada na escuta de especialistas e pesquisadores.
A série investigativa, realizada em colaboração com o Pulitzer Center e publicada em julho de 2025, mapeou 1.012 licitações públicas emitidas por autoridades brasileiras desde 2004 para a aquisição de mais de 5,4 mil toneladas de carne de tubarão, totalizando um investimento de, no mínimo, R$ 112 milhões. Em dezembro do ano passado, a mesma série já havia sido agraciada com o segundo lugar na categoria nacional do 67º Prêmio ARI/Banrisul de Jornalismo.
Quais foram os principais achados da investigação premiada?
A investigação da Mongabay revelou que as compras governamentais de carne de tubarão eram destinadas a milhares de escolas, hospitais, prisões e outras instituições públicas. A Andifes ressaltou a importância do trabalho ao valorizar o conhecimento científico na abordagem jornalística, evidenciando o papel do ensino superior na produção de evidências e no subsídio ao debate público e às políticas públicas.
As licitações analisadas foram emitidas por 542 municípios em 10 dos 26 estados do país, levantando preocupações ambientais e de saúde pública. Os autores da série foram o editor-sênior Philip Jacobson e as repórteres investigativas Karla Mendes e Fernanda Wenzel, da Mongabay, em conjunto com Kuang Keng Kuek Ser, editor de dados do Pulitzer Center.
Quais os riscos do consumo de carne de tubarão?
Tubarões, por serem predadores no topo da cadeia alimentar, tendem a acumular altos níveis de metais pesados em seus tecidos, como mercúrio e arsênio. A ingestão dessas substâncias em grandes quantidades pode ser prejudicial à saúde humana, especialmente para crianças e outros grupos vulneráveis. Além disso, a sobrepesca, motivada pela procura pela carne e pela barbatana do animal, tem levado diversas espécies de tubarões e raias à extinção.
Uma segunda reportagem, parte da mesma investigação, revelou que prefeituras e o estado do Rio Grande do Sul emitiram licitações para pelo menos 211 toneladas de tubarão-anjo, uma espécie também ameaçada de extinção.
Qual o impacto do Prêmio Andifes no jornalismo investigativo?
O Prêmio Andifes de Jornalismo, criado em 1999, tem como objetivo reconhecer trabalhos que contribuem para o debate público qualificado sobre a educação brasileira, tanto no nível básico quanto no ensino superior público. A Andifes reafirmou seu reconhecimento ao jornalismo comprometido com o interesse público, com a educação de qualidade, com a ciência e com a democracia.
Quais foram as repercussões da investigação da Mongabay?
Após a publicação, a investigação da Mongabay gerou um pedido de audiência pública pelo deputado federal Nilto Tatto (PT-SP) e debates na indústria sobre os riscos associados ao consumo de carne de tubarão. O Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) citou a reportagem em uma moção para proibir a exportação de barbatanas de tubarão e a pesca do animal com estropo de aço em unidades de conservação marinha. O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima afirmou que as denúncias contribuíram para a revisão do arcabouço legal para o comércio de tubarões.
Adicionalmente, a carne de tubarão foi banida em 1,2 mil escolas administradas pela Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, após a divulgação de um relatório de ativistas que se baseou nas revelações da investigação da Mongabay. A investigação também recebeu destaque em veículos de comunicação como a rádio pública The World, dos Estados Unidos, o podcast da Mongabay e a série de vídeos “Unpacking the Story” do iMEdD International Journalism Forum.
