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Misoginia nas redes: como atua a engrenagem de ódio e recrutamento de jovens

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Jovem sentado em um quarto escuro, iluminado apenas pela luz azulada de um computador, com expressão de concentração.
Foto: roparedes / flickr (by)

A atuação de grupos misóginos nas redes sociais, o recrutamento de meninos e adolescentes e a exploração de frustrações masculinas por comunidades de ódio voltaram ao centro do debate após uma sequência recente de casos de violência contra mulheres no Brasil. De acordo com informações do EcoDebate, com base em reportagem da Agência Brasil publicada em 23 de março de 2026, especialistas apontam que esses episódios não são isolados, mas parte de uma estrutura que combina histórico patriarcal, ambientes digitais, falhas de regulação das plataformas e articulações políticas que se beneficiam da submissão feminina.

No centro dessa análise estão pesquisadores e ativistas que estudam a chamada machosfera, além de casos recentes citados na reportagem, como o feminicídio da policial militar Gisele Alves Santana, em São Paulo, e o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro. As investigações sobre a morte da policial, segundo o texto original, mostram que o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, acusado do crime, usava em conversas termos comuns em grupos misóginos da internet, como “macho alfa” e “mulher beta”.

O que especialistas apontam como origem dessa engrenagem de misoginia?

Para os especialistas ouvidos pela reportagem, a violência contra mulheres não surgiu com a internet, embora o ambiente digital tenha ampliado o alcance e a velocidade de circulação desses discursos. A socióloga e cientista política Bruna Camilo afirma que a misoginia está ligada a estruturas patriarcais antigas, e que as plataformas digitais funcionam como potencializadoras desse processo.

“Falamos muito sobre o aumento dessa violência, mas ela é secular, existe desde a construção da sociedade. Vemos estruturas patriarcais antigas de submissão das mulheres, e a internet potencializa essa violência”, diz a socióloga Bruna Camilo.

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O psicólogo social Benedito Medrado Dantas, professor da Universidade Federal de Pernambuco, acrescenta que essas manifestações de ódio também se intensificam como reação às conquistas femininas e à ocupação, pelas mulheres, de espaços historicamente negados a elas. Nessa leitura, a misoginia aparece como resposta à transformação das relações sociais, domésticas e familiares.

Como funciona o recrutamento de jovens para a chamada machosfera?

Pesquisadores relatam que meninos cada vez mais novos têm sido atraídos por fóruns, canais de vídeo, grupos de mensagens e perfis em redes sociais voltados à defesa de um padrão conservador de masculinidade e à oposição aos direitos das mulheres. A ativista feminista e professora Lola Aronovich diz ter encontrado adolescentes entre 12 e 14 anos em comunidades online, especialmente no Discord, plataforma de comunicação bastante usada por jovens em grupos fechados e comunidades temáticas.

“Acontece um recrutamento muito pesado. Comecei a pesquisar o Discord e vi que eram meninos cada vez mais novos, entre 12 e 14 anos. Fiquei muito chocada porque estava acostumada com adolescentes mais velhos, mas, principalmente, adultos”, diz Lola.

Segundo ela, a aproximação costuma ser gradual, com sondagens feitas a partir da reação dos jovens a termos e ideias misóginos. A pesquisadora Julie Ricard, da Fundação Getulio Vargas, mapeou 85 comunidades abertas no Telegram e afirma que muitas delas se apresentam como espaços de autoajuda, desenvolvimento econômico ou vida fitness, embora levem a narrativas de ressentimento contra mulheres.

Estudos do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também citados na reportagem, mapearam mais de 130 mil canais misóginos no YouTube. Entre os temas usados como porta de entrada para conteúdos de ódio, aparecem:

  • sedução e relacionamentos;
  • questões jurídicas;
  • vencer a timidez.

Por que esses discursos encontram adesão entre adolescentes e homens adultos?

Os especialistas afirmam que não há uma resposta única, mas apontam padrões recorrentes. No caso dos adolescentes, a vulnerabilidade própria dessa fase da vida, marcada pela construção de identidade e pelo amadurecimento socioemocional, pode ser explorada por grupos que defendem masculinidade violenta e submissão feminina. Benedito Medrado Dantas avalia que a ausência de diálogo em casa amplia esse risco.

“Sem interações e conflitos, não há possibilidade de a família criar filtros sobre a informação que eles acessam. Há um processo de fragilização grande porque estão tentando construir a si mesmos, e conteúdos violentos podem ser mais atrativos”, diz Benedito.

Ele também observa que essas mensagens circulam com linguagem simples, em memes e humor, o que facilita a assimilação. Entre homens adultos, segundo Julie Ricard, o feminismo e as mulheres podem ser transformados em bodes expiatórios para dificuldades pessoais, especialmente quando há frustrações econômicas e afetivo-sexuais.

“Muitos se apresentam como vítimas, porque se veem como homens feios ou sem dinheiro. O que percebemos nessas comunidades é um ressentimento muito grande com a própria situação”, diz a pesquisadora Julie Ricard.

A pesquisadora destaca que parte desses homens foi socializada sob a expectativa de ocupar o papel de provedor, e que a impossibilidade de corresponder a esse modelo pode alimentar ressentimentos explorados por essas comunidades.

Qual é o papel das plataformas digitais e das lideranças desses grupos?

A reportagem destaca que, por trás da aparente espontaneidade desses grupos, há liderança, organização e monetização.

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