
A mineradora australiana BHP está enfrentando forte pressão do governo da China para alterar as diretrizes globais de precificação do minério de ferro. A resistência da companhia ocorre em um cenário onde a demanda chinesa apresenta queda, levando as autoridades asiáticas a consolidarem as aquisições através de uma única compradora estatal com o objetivo de forçar uma redução nos valores internacionais do insumo básico.
De acordo com informações do Valor Empresas, uma corporação estatal chinesa já limitou significativamente as compras provenientes do Grupo BHP. Em contrapartida, outras gigantes da mineração que operam na Austrália aparentemente aceitaram renegociar seus parâmetros de vendas para atender às exigências governamentais de Pequim.
Como a China tenta manipular os preços do minério de ferro?
Para centralizar as aquisições globais, o governo chinês criou a China Mineral Resources Group (CMRG) em 2022. Essa manobra retirou o poder de negociação que antes pertencia às siderúrgicas individuais, transferindo-o para uma entidade única e fortalecendo a posição do país asiático diante das maiores mineradoras mundiais, como a Rio Tinto e a brasileira Vale. Para o Brasil, a pressão chinesa por preços menores é um fator de alerta, já que o minério de ferro é um dos principais itens da pauta de exportação nacional, e quedas na cotação afetam diretamente a balança comercial e a arrecadação de royalties do setor.
As discussões entre as partes estão travadas. Segundo a mídia asiática, as negociações sobre os contratos de fornecimento previstos para o período entre junho de 2025 e 2026 não avançaram. Como retaliação às exigências negadas em setembro de 2025, a estatal asiática cortou a aquisição de produtos específicos da mineradora australiana. Exportações dos principais minérios da empresa registraram uma queda de 80% no comparativo anual.
Qual é o impacto da desaceleração chinesa no setor de mineração?
Apesar de a economia chinesa apresentar sinais evidentes de retração e a crise do setor imobiliário doméstico se agravar, a cotação internacional permaneceu relativamente estável, flutuando em torno de US$ 100 por tonelada. Isso gera insatisfação em Pequim, que consome 70% de todo o minério transportado por via marítima no mundo e considera que as atuais referências não refletem os descontos proporcionais ao alto volume adquirido.
A produção de aço bruto na nação asiática atingiu seu ápice há cinco anos, somando pouco mais de um bilhão de toneladas, mas entrou em declínio contínuo até atingir o menor patamar dos últimos sete anos em 2025. Diante desse quadro de menor urgência por matéria-prima, os compradores estatais passaram a exigir pagamentos em yuan, maiores abatimentos por quantidade e novos referenciais de mercado.
Por que concorrentes cederam enquanto a australiana resiste?
Empresas rivais adotaram uma postura de aproximação comercial. A Rio Tinto e a Fortescue concordaram em alterar os moldes de precificação com a estatal compradora. Além disso, as duas corporações estão ampliando o uso de equipamentos chineses em suas minas e intensificaram o volume de transações financeiras liquidadas na moeda asiática, chegando a garantir aportes de US$ 2 bilhões em financiamentos de bancos asiáticos em agosto de 2025.
Diferente das concorrentes que focam em materiais de alta qualidade para produzir aço verde, a empresa resistente segue outra rota estratégica. A corporação mantém o foco no carvão de qualidade inferior destinado aos altos-fornos tradicionais e enxugou agressivamente seu quadro de funcionários. Com o aumento da automação, o custo de produção despencou para apenas US$ 18,56 por tonelada métrica.
O presidente e fundador da companhia concorrente Fortescue, Andrew Forrest, criticou abertamente as táticas comerciais de Pequim em uma entrevista recente sobre a estabilidade do mercado mundial.
Formar um cartel para forçar a queda do preço do minério de ferro impactará completamente a economia. Quando você ameaça alguém que não tem nada a perder, pode obter qualquer tipo de resposta, e tudo o que estou dizendo é que o preço do minério de ferro é crucial para a economia australiana.
Especialistas do setor de recursos naturais indicam que a estratégia de resistência se fundamenta nos seguintes fatores práticos e financeiros de longo prazo:
- A margem de lucro permite que a mineradora empate financeiramente mesmo se as cotações caírem para um quinto do valor atual de mercado.
- A receita gerada com o cobre já representou mais da metade dos lucros totais da companhia no segundo semestre de 2025.
- Os lucros da extração de ferro continuam sendo essenciais para financiar as novas áreas de expansão tecnológica e energética do grupo internacional.
O impasse diplomático e comercial tende a se intensificar. Com o encolhimento populacional na Ásia e o esfriamento da economia, as exportadoras australianas consideram a defesa das atuais margens de preço uma medida vital para proteger a estrutura do mercado pelas próximas décadas, mesmo que isso signifique perder fatias de exportação no curto prazo.


