A proposta de criação de uma unidade de conservação no Cerrado, o segundo maior bioma do Brasil, localizada no norte de Minas Gerais, sofreu uma redução de 41,6% em sua área original no mês de março de 2026. A decisão do governo federal excluiu o Vale do rio Peixe Bravo e comunidades tradicionais do traçado final da agora denominada Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Córregos dos Vales do Norte de Minas. A alteração ocorreu após intensa oposição de líderes políticos locais e do setor minerário.
De acordo com informações do site especializado em meio ambiente ((o))eco, a exclusão da área quilombola e das cangas ferruginosas resultou de uma articulação que envolveu prefeitos da região, parlamentares e o Ministério de Minas e Energia, além de gigantes do setor de extração, como a mineradora Vale.
Como a pressão política alterou o projeto ambiental?
O projeto da reserva circulava nos ministérios há mais de 15 anos. Na atual gestão, o consenso entre organizações socioambientais apontava para a inclusão do Vale do Peixe Bravo na área protegida, que cobriria cerca de 70 mil hectares entre os municípios de Riacho dos Machados, Rio Pardo de Minas e Serranópolis de Minas, localizados na região semiárida do estado.
No entanto, documentos revelam que a área foi reduzida para 40,8 mil hectares. A mudança excluiu as cangas ferruginosas, que são crostas rochosas essenciais para a segurança hídrica local e altamente cobiçadas pela indústria da mineração. A nascente que abastece a comunidade quilombola local, onde vive a parteira Maria Celsa, de 71 anos, também ficou de fora da zona de proteção integral.
A gente fica oprimido
A declaração da moradora ilustra o temor de perder o acesso à água, recurso que ela afirma nunca ter secado desde o seu nascimento, em contrapartida ao avanço dos projetos de extração e dos bosques de eucalipto.
Qual foi o papel das promessas de investimento na região?
A oposição à reserva ambiental ganhou força a partir de expectativas econômicas. Relatos de prefeitos indicam que a mineração planeja investir quantias expressivas para criar um novo polo no norte mineiro. O prefeito de Riacho dos Machados, Ricardo Paz, citou a cifra de R$ 70 bilhões e confirmou sua atuação para barrar o projeto original.
A gente sabe que se chegar uma empresa dessa, melhora tudo. Chega de a gente ser Gerais. A gente quer ser Minas também
A declaração do prefeito evidencia o conflito de interesses e faz alusão à histórica divisão socioeconômica do estado, onde “Minas” representa as áreas ricas beneficiadas pela mineração e “Gerais” as regiões mais pobres voltadas tradicionalmente à agropecuária. Enquanto líderes políticos buscam o progresso industrial, comunidades geraizeiras (populações tradicionais do Cerrado) e quilombolas defendem a agricultura familiar e a preservação do bioma como suas principais riquezas. A empresa Vale, por meio de nota oficial, afirmou que não possui previsão de implantação de projetos na região no atual momento e que realiza pesquisas apenas onde detém direitos autorizados, não respondendo diretamente sobre os valores relatados pelas autoridades públicas.
O que dizem os órgãos federais sobre a mineração na área?
A atuação do governo federal no tema gerou divergências internas. Uma nota técnica formulada pelo Ministério de Minas e Energia sugeriu que a criação da reserva poderia gerar prejuízos para a indústria minerária e recomendou a permissão expressa da atividade tanto dentro da unidade quanto em sua zona de amortecimento.
O decreto oficializado em março de 2026 cedeu parcialmente a essas pressões. O texto final estabelece diretrizes específicas:
- Proíbe a mineração dentro dos limites da nova reserva reduzida;
- Permite a atividade extrativista na zona de amortecimento, mediante licenciamento ambiental prévio;
- Exclui do perímetro protegido as áreas de maior interesse para a extração de minério de ferro.
Para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), autarquia federal vinculada ao Ministério do Meio Ambiente e responsável por gerir as unidades de conservação do país, autorizar a mineração dentro de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável seria tecnicamente inviável. A justificativa é que a extração lida com recursos não renováveis, o que abriria um precedente de risco para o sistema nacional de conservação. A disputa territorial reflete um amplo campo de interesses mapeados em plataformas abertas de dados governamentais, evidenciando que múltiplas frentes mantêm o foco exploratório no norte do estado mineiro.
