A atuação de navios chineses ligados à pesquisa de mineração em alto-mar pode ter também utilidade estratégica para monitorar áreas sensíveis de interesse militar, segundo investigação publicada em 24 de março de 2026 pela Mongabay em parceria com a CNN. O levantamento analisou oito embarcações estatais chinesas que operam em áreas de exploração autorizadas pela Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos e concluiu que elas passaram pouco tempo nessas zonas, concentrando parte relevante de suas viagens em águas de importância militar. De acordo com informações da Mongabay Global, isso não prova uso militar direto, mas reforça a hipótese de emprego dual, científico e estratégico.
Para o Brasil, o tema tem relevância porque a disputa por monitoramento, minerais críticos e presença naval em áreas oceânicas se conecta ao debate sobre segurança marítima e proteção da chamada Amazônia Azul, área marítima sob jurisdição brasileira de grande importância econômica e estratégica. A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, citada na reportagem, é o organismo vinculado à ONU que organiza e regula atividades minerais em áreas do leito marinho além das jurisdições nacionais.
A reportagem afirma que, nos últimos cinco anos, esses oito navios passaram cerca de 6% do tempo total em mar aberto dentro ou nas proximidades de áreas reservadas por empresas chinesas para exploração mineral profunda. A análise usou dados da MarineTraffic e da plataforma Deep Sea Mining Watch. No restante do período, segundo a investigação, várias embarcações circularam por regiões consideradas sensíveis, frequentaram portos com conexões militares, entraram em zonas econômicas exclusivas de outros países e, em alguns momentos, deixaram de transmitir sinais do sistema automático de identificação, o AIS.
O que a investigação identificou sobre os navios chineses?
Um dos casos citados é o do navio Xiang Yang Hong 01, embarcação oceanográfica estatal chinesa em serviço desde 2016. Em junho de 2025, ele navegou pelo Pacífico Noroeste até alcançar uma área do fundo do mar rica em nódulos polimetálicos, formações que contêm metais como manganês, níquel, cobalto e cobre. No local, o navio realizou movimentos em zigue-zague associados a atividades de pesquisa em uma área que pode vir a ser explorada pela mineração em águas profundas.
Apesar dessas missões, a investigação sustenta que o Xiang Yang Hong 01 passou muito mais tempo fora das áreas oficialmente designadas para exploração mineral profunda do que dentro delas. O texto também diz que a embarcação ficou “no escuro” diversas vezes ao longo dos últimos cinco anos, possivelmente com o AIS desligado, enquanto operava em áreas oceânicas estrategicamente sensíveis, segundo a Starboard Maritime Intelligence, sediada na Nova Zelândia.
“Essas lacunas são significativas.”
A frase foi atribuída a Mark Douglas, analista da Starboard Maritime e integrante da reserva naval da Nova Zelândia, em declaração por e-mail à Mongabay e à CNN. Segundo o texto original, ele afirmou ainda que o navio chinês demonstra um padrão deliberado de operação em áreas sensíveis, fora do alcance dos sistemas tradicionais de rastreamento.
Há prova de uso militar dessas embarcações?
A própria investigação ressalta que os dados reunidos não comprovam que os navios exerçam função militar. Ainda assim, especialistas ouvidos pelos veículos afirmam que o padrão observado sugere possível uso dual, com finalidade científica e papel estratégico. Mais de uma dezena de especialistas navais e militares foi entrevistada para a reportagem, que também informa que várias agências e instituições chinesas foram procuradas, sem responder a questionamentos sobre eventual dupla utilização dessas embarcações oceanográficas.
O Ministério das Relações Exteriores da China não respondeu diretamente às perguntas sobre as atividades do Xiang Yang Hong 01 nem sobre possíveis usos militares dos navios de pesquisa oceanográfica. Em nota reproduzida pela reportagem, o ministério declarou que a China realiza atividades de exploração em alto-mar, pesquisa científica e proteção ambiental no âmbito da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, em conformidade com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, e que o país atribui alta importância à proteção ambiental em águas profundas.
Por que a disputa envolve China e Estados Unidos?
O pano de fundo da investigação é a crescente competição entre China e Estados Unidos por minerais críticos presentes no leito marinho. A reportagem informa que a China se posicionou como líder global no setor, com cinco dos 31 contratos de exploração emitidos pela Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos e como seu maior contribuinte financeiro. A ISA, sigla em inglês da autoridade, declarou por e-mail à Mongabay e à CNN que o valor da contribuição de um Estado-membro não é relevante para o número de contratos assinados ou patrocinados por esse país.
Em resposta ao avanço chinês, os Estados Unidos aceleram sua própria estratégia para acessar áreas do fundo do mar e reduzir a dependência da cadeia de suprimentos dominada por Pequim. O texto relata que Washington pretende impulsionar a mineração em águas profundas como forma de diversificar o acesso a minerais críticos. Também menciona um fundo de investimento de US$ 12 bilhões para estimular a atividade e ampliar a presença americana nesse mercado.
Para o leitor brasileiro, a disputa interessa também porque minerais críticos são insumos relevantes para cadeias industriais e tecnológicas globais, com efeitos sobre comércio, transição energética e geopolítica. Em um cenário de maior competição no mar, países com extensa costa e interesses estratégicos no Atlântico Sul acompanham com atenção o uso civil e militar de embarcações oceanográficas.
- Oito navios chineses foram monitorados na investigação.
- Cerca de 6% do tempo em mar aberto foi gasto em ou perto de áreas de exploração mineral reservadas à China.
- A maior parte das viagens ocorreu fora dessas zonas, inclusive em águas de interesse estratégico.
- A apuração cita portos com conexões militares, incursões em zonas econômicas exclusivas e episódios de AIS desligado.
Quais são os riscos ambientais apontados no debate?
Além da dimensão geopolítica, a reportagem destaca críticas de ambientalistas e especialistas que alertam para danos possivelmente irreversíveis aos ecossistemas marinhos. O setor de mineração em alto-mar ainda é controverso, e a extração comercial não começou sob regras plenamente consolidadas em âmbito internacional.