As migrações de peixes de água doce em rios de várias partes do mundo estão entrando em colapso acelerado, segundo uma avaliação liderada pela Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias da ONU e divulgada em 24 de março de 2026, durante reunião de países membros no Brasil. O levantamento concluiu que as populações globais de peixes de água doce caíram cerca de 81% desde 1970, em um processo associado à poluição, à construção de barragens, à sobrepesca e ao aquecimento das águas provocado pela crise climática.
De acordo com informações do Guardian Environment, a análise é descrita como a mais abrangente já realizada sobre o tema. O estudo avaliou dados de mais de 15 mil espécies de peixes de água doce e identificou 325 espécies que cruzam fronteiras e poderiam atender aos critérios para inclusão em listas de proteção. Até agora, apenas 24 foram formalmente listadas, em sua maioria esturjões.
O relatório destaca que essas migrações estão entre os grandes fenômenos naturais do planeta. Um dos exemplos citados é o bagre-dourado, apontado como a espécie de peixe de água doce com a migração mais longa conhecida: cerca de 11 mil quilômetros, desde áreas de reprodução no sopé dos Andes até o estuário amazônico e depois de volta. Outro caso mencionado é o da enguia-europeia, que faz um trajeto de ida e volta de 8 mil milhas entre o mar e os rios.
Por que os peixes migratórios de água doce estão em risco?
Segundo a avaliação, espécies de água doce são especialmente vulneráveis aos impactos humanos porque a poluição costuma escoar para rios e lagos, enquanto barragens bloqueiam rotas essenciais e a sobrepesca reduz drasticamente as populações. A crise climática agrava esse cenário ao elevar a temperatura da água, alterando condições fundamentais para alimentação, reprodução e deslocamento.
A secretária-executiva da CMS, Amy Fraenkel, afirmou que a migração animal é uma das grandes maravilhas da natureza, mas que essas espécies enfrentam pressões crescentes em todas as fases do ciclo de vida. Ela defendeu cooperação internacional para garantir a sobrevivência desses animais, cujas jornadas atravessam fronteiras nacionais e até continentes.
“A migração animal é uma das grandes maravilhas da natureza”, disse Amy Fraenkel, secretária-executiva da CMS. “Suas jornadas, que podem cruzar múltiplas fronteiras nacionais e até continentes, são feitos extraordinários de timing e resistência. Mas essas espécies enfrentam pressões crescentes em todas as fases de seus ciclos de vida. A cooperação internacional é essencial para garantir que essas espécies sobrevivam e prosperem.”
Além do impacto ambiental, o texto ressalta que os peixes migratórios de água doce sustentam algumas das maiores pescarias continentais do mundo e ajudam a manter o sustento de centenas de milhões de pessoas. No lago Tonlé Sap, no Camboja, que integra o sistema do rio Mekong, há mais de 100 espécies migratórias.
Quais bacias hidrográficas preocupam mais os pesquisadores?
O relatório aponta preocupação especial com a bacia do Mekong, no Sudeste Asiático, onde todos os grandes peixes migratórios de água doce estariam agora sob risco de extinção. Entre eles está o bagre-gigante do Mekong, cuja dimensão teria sido reduzida pela metade nos últimos anos em razão da sobrepesca, segundo o texto original.
Outras bacias consideradas prioritárias são:
- Mekong
- Danúbio
- Nilo
- Ganges-Brahmaputra
- Amazonas
A Amazônia é citada como um dos últimos grandes refúgios para peixes migratórios de água doce, em parte por ainda preservar extensas áreas relativamente menos desenvolvidas. Como a bacia amazônica se estende por vários países da América do Sul, a preservação dessas rotas também depende de coordenação internacional. Um dos peixes mencionados na bacia amazônica é a piraíba, também chamada de bagre-golias, que pode alcançar 225 quilos.
Segundo o material, Brasil e outros países já propuseram um plano de ação de dez anos para bagres migratórios, iniciativa apresentada como possível modelo para outras bacias hidrográficas. A reunião dos 132 países que integram a CMS ocorre em março de 2026 no Brasil, e a ampliação da cooperação internacional aparece como um dos principais temas da agenda.
Que medidas são defendidas para frear o colapso?
Entre as ações citadas no relatório estão a remoção ou prevenção de barreiras nos rios, a garantia de fluxo de água, o combate à poluição e a coordenação da atividade pesqueira entre países. O documento observa que metade da superfície terrestre está em bacias hidrográficas compartilhadas por mais de um país, o que exige respostas articuladas entre governos.
O texto também cita perdas já consolidadas. Um exemplo é o peixe-espátula-chinês, do rio Yangtzé, descrito como a primeira dessas grandes espécies migratórias icônicas a ser extinta. De acordo com o relato, seu desaparecimento foi atribuído à construção da usina hidrelétrica de Gezhouba em 1981.
Para os autores e especialistas ouvidos na reportagem, o colapso das migrações fluviais representa uma crise de biodiversidade ainda pouco percebida. A avaliação sugere que, sem proteção coordenada de rios como sistemas conectados, espécies que dependem dessas longas jornadas podem desaparecer definitivamente.
