Migração de peixes em rios entra em colapso acelerado, aponta relatório da ONU - Brasileira.News
Início Meio Ambiente Migração de peixes em rios entra em colapso acelerado, aponta relatório da...

Migração de peixes em rios entra em colapso acelerado, aponta relatório da ONU

0
12
Cardume de peixes nada em rio com águas turvas, ilustrando impacto ambiental nos ecossistemas aquáticos.
Foto: Autor / Flickr (CC BY)

As migrações de peixes de água doce em rios de várias partes do mundo estão entrando em colapso acelerado, segundo uma avaliação liderada pela Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias da ONU e divulgada em 24 de março de 2026, durante reunião de países membros no Brasil. O levantamento concluiu que as populações globais de peixes de água doce caíram cerca de 81% desde 1970, em um processo associado à poluição, à construção de barragens, à sobrepesca e ao aquecimento das águas provocado pela crise climática.

De acordo com informações do Guardian Environment, a análise é descrita como a mais abrangente já realizada sobre o tema. O estudo avaliou dados de mais de 15 mil espécies de peixes de água doce e identificou 325 espécies que cruzam fronteiras e poderiam atender aos critérios para inclusão em listas de proteção. Até agora, apenas 24 foram formalmente listadas, em sua maioria esturjões.

O relatório destaca que essas migrações estão entre os grandes fenômenos naturais do planeta. Um dos exemplos citados é o bagre-dourado, apontado como a espécie de peixe de água doce com a migração mais longa conhecida: cerca de 11 mil quilômetros, desde áreas de reprodução no sopé dos Andes até o estuário amazônico e depois de volta. Outro caso mencionado é o da enguia-europeia, que faz um trajeto de ida e volta de 8 mil milhas entre o mar e os rios.

Por que os peixes migratórios de água doce estão em risco?

Segundo a avaliação, espécies de água doce são especialmente vulneráveis aos impactos humanos porque a poluição costuma escoar para rios e lagos, enquanto barragens bloqueiam rotas essenciais e a sobrepesca reduz drasticamente as populações. A crise climática agrava esse cenário ao elevar a temperatura da água, alterando condições fundamentais para alimentação, reprodução e deslocamento.

— Publicidade —
Google AdSense • Slot in-article

A secretária-executiva da CMS, Amy Fraenkel, afirmou que a migração animal é uma das grandes maravilhas da natureza, mas que essas espécies enfrentam pressões crescentes em todas as fases do ciclo de vida. Ela defendeu cooperação internacional para garantir a sobrevivência desses animais, cujas jornadas atravessam fronteiras nacionais e até continentes.

“A migração animal é uma das grandes maravilhas da natureza”, disse Amy Fraenkel, secretária-executiva da CMS. “Suas jornadas, que podem cruzar múltiplas fronteiras nacionais e até continentes, são feitos extraordinários de timing e resistência. Mas essas espécies enfrentam pressões crescentes em todas as fases de seus ciclos de vida. A cooperação internacional é essencial para garantir que essas espécies sobrevivam e prosperem.”

Além do impacto ambiental, o texto ressalta que os peixes migratórios de água doce sustentam algumas das maiores pescarias continentais do mundo e ajudam a manter o sustento de centenas de milhões de pessoas. No lago Tonlé Sap, no Camboja, que integra o sistema do rio Mekong, há mais de 100 espécies migratórias.

Quais bacias hidrográficas preocupam mais os pesquisadores?

O relatório aponta preocupação especial com a bacia do Mekong, no Sudeste Asiático, onde todos os grandes peixes migratórios de água doce estariam agora sob risco de extinção. Entre eles está o bagre-gigante do Mekong, cuja dimensão teria sido reduzida pela metade nos últimos anos em razão da sobrepesca, segundo o texto original.

Outras bacias consideradas prioritárias são:

  • Mekong
  • Danúbio
  • Nilo
  • Ganges-Brahmaputra
  • Amazonas

A Amazônia é citada como um dos últimos grandes refúgios para peixes migratórios de água doce, em parte por ainda preservar extensas áreas relativamente menos desenvolvidas. Como a bacia amazônica se estende por vários países da América do Sul, a preservação dessas rotas também depende de coordenação internacional. Um dos peixes mencionados na bacia amazônica é a piraíba, também chamada de bagre-golias, que pode alcançar 225 quilos.

Segundo o material, Brasil e outros países já propuseram um plano de ação de dez anos para bagres migratórios, iniciativa apresentada como possível modelo para outras bacias hidrográficas. A reunião dos 132 países que integram a CMS ocorre em março de 2026 no Brasil, e a ampliação da cooperação internacional aparece como um dos principais temas da agenda.

Que medidas são defendidas para frear o colapso?

Entre as ações citadas no relatório estão a remoção ou prevenção de barreiras nos rios, a garantia de fluxo de água, o combate à poluição e a coordenação da atividade pesqueira entre países. O documento observa que metade da superfície terrestre está em bacias hidrográficas compartilhadas por mais de um país, o que exige respostas articuladas entre governos.

O texto também cita perdas já consolidadas. Um exemplo é o peixe-espátula-chinês, do rio Yangtzé, descrito como a primeira dessas grandes espécies migratórias icônicas a ser extinta. De acordo com o relato, seu desaparecimento foi atribuído à construção da usina hidrelétrica de Gezhouba em 1981.

Para os autores e especialistas ouvidos na reportagem, o colapso das migrações fluviais representa uma crise de biodiversidade ainda pouco percebida. A avaliação sugere que, sem proteção coordenada de rios como sistemas conectados, espécies que dependem dessas longas jornadas podem desaparecer definitivamente.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here