A combinação estratégica entre a restauração ecológica de manguezais e a construção de infraestruturas artificiais, como os diques, pode criar um sistema híbrido de defesa costeira altamente eficaz diante do aumento global do nível do mar. Um estudo publicado em abril de 2026 na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences revela que esta abordagem conjunta tem o potencial imediato de evitar US$ 800 milhões em danos anuais causados por tempestades e enchentes, além de proteger 140 mil pessoas que seriam diretamente impactadas a cada ano.
De acordo com informações da Mongabay Global, os pesquisadores utilizaram modelos computacionais para avaliar a viabilidade econômica e estrutural destes projetos preventivos. A análise detalhada indicou que as populações de baixa renda seriam as mais beneficiadas pelas intervenções, com destaque absoluto para o custo-benefício das operações na Ásia Meridional, no Sudeste Asiático e na África Ocidental. A constatação também se mostra estratégica para o Brasil, que abriga uma das maiores extensões de manguezais do mundo, com ecossistemas distribuídos pela faixa litorânea do Amapá até Santa Catarina.
Como a infraestrutura verde e cinza atua na proteção costeira?
As florestas de mangue funcionam como uma defesa natural indispensável para as linhas litorâneas ao redor do globo. Com suas densas matrizes de raízes submersas, esses ecossistemas atuam não apenas como berçários para peixes juvenis e habitats de diversas espécies, mas também como sistemas de filtragem de poluição e barreiras contra a erosão. Mais importante ainda, operam como redutores de velocidade que diminuem drasticamente a força das ondas incidentes durante eventos extremos.
Timothy Tiggeloven, autor principal da pesquisa e pesquisador ambiental da Vrije Universiteit Amsterdam, explica que a infraestrutura natural (verde) e a infraestrutura construída (cinza) se complementam perfeitamente na gestão das águas revoltas. Enquanto os manguezais reduzem a altura e a intensidade das ondas oceânicas, os diques bloqueiam o excedente hídrico, superando as limitações que cada sistema apresentaria caso operasse de maneira isolada na costa.
“Se você tem um dique atrás de um manguezal, ele impedirá que a água transborde para a terra. Enquanto que, se você tiver apenas diques, eles serão atingidos pelas ondas e haverá um transbordamento. Ter esses dois elementos juntos é, na verdade, uma ideia muito inteligente”, afirma Tiggeloven.
Quais são os impactos projetados diante das mudanças climáticas?
Os dados do modelo computadorizado sugerem que a capacidade de proteção desse sistema híbrido se multiplica substancialmente à medida que os efeitos das mudanças climáticas se agravam no mundo. O estudo delimitou cenários precisos baseados na elevação da temperatura global e na intensidade das emissões de gases de efeito estufa. As estimativas de mitigação de danos financeiros e humanos são notáveis:
- Cenário atual: redução de US$ 800 milhões em danos anuais e 140 mil pessoas poupadas dos impactos de enchentes extremas.
- Cenário moderado (aquecimento de dois a três graus Celsius): redução projetada de US$ 25 bilhões em prejuízos por ano e cerca de 400 mil pessoas protegidas.
- Cenário pessimista (aquecimento superior a quatro graus Celsius): prevenção de mais de US$ 65 bilhões em danos anuais, mantendo o índice de 400 mil indivíduos resguardados.
O economista ambiental Jonah Busch, que não participou diretamente do estudo, elogiou a metodologia técnica da equipe de pesquisa, destacando a complexidade de unir modelos econômicos, de engenharia e biofísicos em uma análise única e coerente. Segundo especialistas da área, a necessidade de colocar essas soluções integradas em prática é urgente, considerando as ameaças iminentes à biodiversidade litorânea.
Por que a preservação atual dos manguezais gera preocupação?
Um levantamento da IUCN, autoridade global em conservação da natureza, divulgado no ano de 2024, alertou para o estado crítico em que se encontram esses ecossistemas vitais. A degradação acelerada compromete severamente a resiliência natural contra a elevação oceânica. Os fatores responsáveis pelo declínio dos biomas abrangem diversas intervenções antropogênicas, que exigem atenção imediata das autoridades:
- Aumento contínuo da poluição nas águas costeiras.
- Avanço acelerado do desmatamento de áreas nativas.
- Construção de barragens que alteram drasticamente o fluxo hídrico.
- Desenvolvimento urbano e imobiliário descontrolado em zonas costeiras.
Atualmente, restam aproximadamente 147 mil quilômetros quadrados de florestas de mangue em todo o planeta, uma área próxima à extensão territorial de Bangladesh. Esse número representa uma queda preocupante que varia de 30% a 50% em relação à distribuição histórica registrada ao longo do último século. O relatório pontuou que mais da metade dos manguezais sobreviventes corre grave risco de colapso até o ano de 2050.
Tiggeloven ressaltou que o objetivo final da pesquisa não é incentivar a construção irrestrita de diques atrás de todos os manguezais existentes, mas sim fornecer um guia estratégico para identificar locais onde a restauração pode ser mais benéfica e econômica. Projetos que restauram o fluxo de água para mangues ou que realizam o plantio intencional à frente de sistemas de drenagem já começaram a ser testados nas costas da Guiana, no Suriname e nos arrozais de Guiné-Bissau. A expectativa científica é expandir o modelo para incluir as interações dos diques com recifes de corais e pântanos salgados, garantindo comunidades litorâneas mais seguras.

