As grandes petroleiras podem obter €24 bilhões em lucros extras com motoristas europeus ao longo de 2026, segundo uma análise divulgada em 30 de março pela Transport & Environment (T&E) e reproduzida pela CleanTechnica. O cálculo foi associado à alta recente dos preços do petróleo após o conflito no Oriente Médio, com impacto direto sobre diesel e gasolina vendidos na União Europeia. Embora o levantamento trate do mercado europeu, movimentos do petróleo no mercado internacional também costumam ser acompanhados no Brasil por influenciarem o custo global da energia e a formação de preços de combustíveis. A entidade defende que a UE volte a aplicar uma taxação temporária sobre os lucros excedentes do setor e use os recursos para reduzir a dependência de combustíveis fósseis.
De acordo com informações da CleanTechnica, com base em um monitoramento da T&E, as empresas de petróleo já teriam acumulado €1,3 bilhão em lucros excedentes. A projeção de €24 bilhões considera a extrapolação desse movimento para o restante de 2026 e, segundo a própria metodologia citada no texto original, é conservadora, porque abrange apenas combustíveis rodoviários e não inclui querosene de aviação, combustível marítimo, óleo de aquecimento ou outros derivados refinados vendidos na Europa.
Por que os preços dos combustíveis subiram na União Europeia?
Segundo o texto, os preços do petróleo aceleraram após o ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã em 28 de fevereiro. Até 23 de março, os preços médios nas bombas da União Europeia haviam alcançado €2,06 por litro no diesel e €1,89 por litro na gasolina. Isso representou alta de €0,49 por litro no diesel e de €0,27 por litro na gasolina em relação ao período anterior ao início do conflito citado.
Na prática, o impacto para o consumidor apareceu no custo de abastecimento. Encher um tanque de 55 litros de diesel passou a custar quase €27 a mais do que antes do início do conflito, enquanto no caso de um carro a gasolina o acréscimo chegou a €15, conforme a análise reproduzida pela reportagem original.
“Mais uma vez, a dor dos motoristas é o ganho das petroleiras. As empresas de petróleo têm todo incentivo para manter a Europa dependente de combustíveis fósseis, porque são elas que se beneficiam dos picos de preços. A União Europeia deveria restabelecer seu imposto sobre lucros excedentes e investir os recursos em eletrificação e energias renováveis, que finalmente romperiam esse ciclo.”
A declaração é de Daniel Quiggin, assessor sênior de políticas da T&E, e resume a posição da organização: a de que a escalada de preços amplia os ganhos das petroleiras e reforça a necessidade de investir em eletrificação e energias renováveis.
Qual é a proposta da T&E para enfrentar esses lucros excedentes?
A T&E pede que a União Europeia restabeleça um imposto temporário sobre os chamados superlucros do petróleo. O argumento é que o bloco já adotou mecanismo semelhante em 2022, quando criou uma cobrança de 33% sobre lucros de combustíveis fósseis que superassem em mais de 20% a média registrada entre 2018 e 2021. A União Europeia reúne 27 países e, em momentos de choque energético, decisões regulatórias do bloco costumam repercutir no mercado internacional de combustíveis e derivados.
Segundo o texto, essa medida arrecadou cerca de €28 bilhões entre 2022 e 2023. Para a entidade, como o instrumento já existiu anteriormente, ele poderia ser reutilizado agora para responder à nova alta dos preços da energia e dos combustíveis.
- Taxa de 33% sobre lucros acima de 20% da média de 2018 a 2021
- Arrecadação estimada de €28 bilhões entre 2022 e 2023
- Defesa de uso dos recursos para eletrificação e fontes renováveis
Quais limites essa taxação pode enfrentar no mercado europeu?
O próprio levantamento aponta restrições para a eficácia de uma cobrança aplicada apenas pela União Europeia. As margens de refino de diesel no continente têm superado as de outras regiões, refletindo uma insuficiência estrutural da capacidade doméstica de refino. Já as margens da gasolina teriam sido mais contidas por causa de estoques elevados nos Estados Unidos e na Europa, além de uma demanda sazonal fraca.
Outro fator destacado é a dependência europeia de importações de diesel. Cerca de 20% do diesel consumido na Europa é importado, o que significa que parte desses lucros excedentes seria obtida fora da jurisdição da UE. Nessa configuração, uma taxação europeia sobre ganhos extraordinários teria alcance limitado sobre parcelas dos rendimentos gerados em mercados externos.
O monitor de lucros da T&E, citado pela reportagem, será atualizado semanalmente. A discussão ocorre em meio ao debate sobre segurança energética, volatilidade geopolítica e alternativas para reduzir a exposição dos consumidores europeus às oscilações do petróleo.

