O ex-trabalhador de aplicativos Hu Anyan transformou suas experiências de precarização na China em um sucesso editorial, lançado no mercado nacional brasileiro em abril de 2026. De acordo com informações da Folha de S.Paulo, a obra retrata o cotidiano extenuante nas ruas de Pequim, onde o autor enfrentou jornadas superiores a 70 horas semanais no setor de entregas. O relato expõe os bastidores do comércio eletrônico asiático, destacando a falta de garantias sociais e o intenso desgaste físico imposto aos entregadores pelas plataformas digitais.
A publicação, intitulada “Faço Entregas em Pequim – Memórias de um Trabalhador”, foi editada no Brasil pela Editora Record. O projeto literário surgiu despretensiosamente durante a pandemia de Covid-19, quando o então entregador começou a registrar seu cotidiano em um blog pessoal na internet. O que começou como um simples diário virtual acabou viralizando rapidamente e culminou na publicação de um volume físico que alcançou a lista de mais vendidos no país asiático.
Como a rotina de entregas afeta o comportamento do trabalhador?
A dinâmica das entregas na capital chinesa, dominada por uma gigantesca frota de profissionais divididos pelas cores de seus respectivos aplicativos, exerce uma profunda pressão psicológica. Hu Anyan relata que a constante urgência do serviço e a necessidade de cumprir metas rigorosas alteraram significativamente o seu estado emocional ao longo do tempo de atuação nas vias públicas.
“O tipo de pessoa que eu era dependia mais do ambiente em que eu estava do que da minha natureza. Na verdade, já naquela época eu percebia que a situação no trabalho estava me transformando aos poucos. Eu ficava mais impaciente, mais irritado, menos responsável.”
— Publicidade —Google AdSense • Slot in-article
Ao ser questionado sobre as reflexões sociológicas levantadas por sua obra, o autor adota uma postura pragmática e direta. Ele afirma que sua intenção original não era debater amplamente a desigualdade social ou a mobilidade estrutural, mas sim documentar sua própria e dura trajetória de vida.
“Só depois da publicação, quando comecei a ser questionado sobre isso, passei a refletir mais sobre o tema. Pessoalmente, vejo o livro como um memorial centrado nas minhas experiências profissionais. Talvez algo entre autobiografia e documentário social.”
Quais são os custos ocultos enfrentados no delivery?
Um dos aspectos mais reveladores da narrativa diz respeito à forma como o tempo é estritamente monetizado pelas plataformas de comércio. O autor detalha a matemática implacável que rege as necessidades fisiológicas básicas de quem trabalha com entregas em Pequim. A simples decisão de ir ao banheiro ou de parar para fazer uma refeição passa por um cálculo meticuloso de quanto dinheiro será perdido naqueles minutos de pausa.
Em uma de suas passagens mais marcantes, o chinês exemplifica o forte impacto financeiro do tempo em que não está em movimento:
“Por exemplo, como meu minuto valia meio yuan, ir ao banheiro me custava 1 yuan, mesmo que o sanitário público fosse de graça, porque eu gastava dois minutos. Almoçar levava 20 minutos — metade deles só esperando a comida ficar pronta —, ou seja, 10 yuans. Se um prato feito custasse 15 yuans, o custo total do meu almoço seria 25 yuans, um luxo que eu não podia me dar.”
Além da perda de ganhos por tempo inativo, os trabalhadores frequentemente assumem os riscos e prejuízos operacionais da cadeia de logística. O escritor menciona que as empresas costumam transferir o custo de falhas no processo para a base trabalhadora. Em um episódio específico, uma ocorrência durante uma entrega resultou em um desconto direto de 1.000 yuans (cerca de R$ 750) em sua remuneração, comprometendo gravemente o orçamento de seu mês.
Por que os consumidores ignoram a realidade das plataformas?
A repercussão do livro revelou um grande abismo de compreensão entre os clientes que utilizam os serviços e a realidade de quem realiza o transporte. Muitos consumidores acreditavam erroneamente que as operações de logística realizadas durante as madrugadas já estavam completamente automatizadas por máquinas, desconhecendo a dependência do trabalho físico humano.
“Alguns leitores ficaram chocados ao descobrir que eu trabalhava no turno da noite separando encomendas em uma empresa de logística. Eles não sabiam que esse tipo de trabalho físico pesado ainda existe nas operações logísticas modernas.”
Embora omita os nomes de algumas corporações específicas para focar em sua experiência pessoal, a narrativa abrange a dinâmica geral de gigantes do setor de tecnologia, como a Meituan, uma das maiores plataformas de delivery de comida e serviços locais da China. A obra de Hu não se restringe unicamente ao período das entregas, mas sim a um histórico mais amplo da exploração no trabalho contemporâneo.
Quais outras experiências precarizadas compõem o livro?
Para construir esse retrato fiel do mercado de trabalho, o autor compilou registros de diversas outras ocupações ao longo de sua jornada. As experiências ilustram um cenário contínuo de esforço excessivo e baixa recompensa financeira, independentemente do nicho de atuação.
Entre as vivências relatadas na publicação, o autor enumera as seguintes situações laborais:
- Atuação como funcionário faz-tudo em lojas de conveniência na metrópole de Xangai.
- Trabalho voltado para o auxílio na venda e manutenção de bicicletas comerciais.
- Períodos de trabalho totalmente não remunerado realizados como etapa de triagem para vagas de entregas.
- Um acúmulo de 19 empregos diferentes espalhados por diversas localidades do país.


