A liquidação do conglomerado ligado ao Banco Master, anunciada no início de abril de 2026, trouxe à tona uma grave crise no sistema financeiro nacional, com potencial para resultar na demissão imediata de 1.500 trabalhadores. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), órgão de pesquisa mantido pelo movimento sindical brasileiro, elaborou um amplo levantamento sobre os desdobramentos deste colapso econômico. De acordo com informações da Radioagência Nacional, a análise aponta para a urgência de reformas estruturais nas políticas de regulação nacional para preservar a estabilidade financeira e proteger os direitos da classe trabalhadora.
Quais são os direitos dos trabalhadores após a liquidação do Banco Master?
A economista responsável pela pesquisa da entidade, Rosângela Vieira, esclarece que a prioridade neste momento de intervenção do Banco Central (BC) deve ser a proteção dos empregados envolvidos. O fechamento afeta diretamente o quadro funcional de três instituições específicas que compõem o grupo financeiro atingido pela medida.
“São trabalhadores do Banco Master, do Will Bank e do Banco Pleno. Todas essas instituições foram liquidadas e os trabalhadores possuem prioridade na ordem de pagamento. Existe ainda trabalhadores ativos para prestar contas para o liquidante nomeado pelo Banco Central. E todos eles têm asseguradas as garantias estabelecidas na negociação coletiva”
A pesquisadora enfatizou que o cumprimento dos acordos trabalhistas prévios se mantém como uma obrigação legal, mesmo diante do encerramento forçado das operações comerciais e da atuação de um interventor oficial indicado pelo órgão regulador do governo.
Como o BRB e os fundos de pensão são afetados pela crise?
Um dos pontos mais críticos do documento detalha o efeito dominó das fraudes sobre outras instituições financeiras sólidas, com destaque para o Banco de Brasília (BRB). O banco público, controlado pelo Governo do Distrito Federal (GDF), adquiriu um volume superior a R$ 12 bilhões em títulos classificados como irregulares, originários do Banco Master. Esta contaminação compromete severamente o desenvolvimento da capital federal, visto que a instituição concentra mais de 60 por cento de todo o financiamento imobiliário da região. Além do risco no crédito habitacional, o cenário ameaça o trabalho de quase 4 mil funcionários diretos do BRB.
A exposição ao risco estende-se de maneira contundente ao setor previdenciário do funcionalismo público. A investigação identificou que 19 fundos de pensão de abrangência municipal e estadual alocaram quase R$ 2 bilhões em ativos do conglomerado liquidado. A ausência de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — entidade que protege depósitos bancários convencionais até R$ 250 mil, mas não abrange esses investimentos específicos — neste cenário agrava a situação, ameaçando a aposentadoria de mais de 630 mil servidores públicos em diversas regiões do país.
“O estado do Rio de Janeiro é o que está mais exposto a esses ativos. Ativos que não estão cobertos pelo FGC. Pela falta de cobertura, pela falta de garantia, não existe certeza em relação ao retorno desses valores. Então isso pode provocar uma redução na rentabilidade desses fundos, gerar ampliação nos déficits atuariais e comprometer o pagamento desses benefícios”
Quais as propostas do Dieese para evitar novas fraudes bancárias?
Diante do cenário instaurado, o departamento sindical avalia que o episódio evidencia lacunas profundas na regulação vigente e sugere uma possível captura do Banco Central por interesses privados, prejudicando a fiscalização do setor. Para mitigar riscos e restabelecer a segurança econômica, os especialistas defendem o fortalecimento do arcabouço normativo.
“É importante destacar também uma agenda de propostas para fortalecer o sistema financeiro nacional. Isso passa pela regulação das Fintechs, especialmente na questão prudencial, fiscal e também regulação trabalhista, evitando fraude, evitando o uso indevido dessas Fintechs para lavagem de dinheiro, por exemplo. No caso do Banco Master, existiu uma instituição de pagamentos que ajudou no mecanismo de fraude desse banco. As investigações falam sobre isso”
Para estruturar uma defesa efetiva da economia e evitar o surgimento de novos esquemas ilícitos, o relatório propõe diretrizes institucionais baseadas no controle social. Entre as demandas elencadas pela pesquisa estão:
- A implementação de uma regulação abrangente para empresas de tecnologia financeira (fintechs) e instituições de pagamento;
- A garantia de assento e participação de representantes dos trabalhadores no Conselho Monetário Nacional (CMN), órgão colegiado superior do sistema financeiro;
- A criação de mecanismos para o desenvolvimento econômico que imponham a limitação dos juros abusivos cobrados pelos bancos;
- O reforço nos dispositivos de proteção para evitar que brechas digitais sirvam à lavagem de dinheiro.
As conclusões da análise reforçam que uma supervisão eficiente requer regras claras para todo o ecossistema de pagamentos, de forma a reverter a vulnerabilidade sistêmica exposta pela operação financeira que culminou no encerramento das atividades da instituição.



